Na tarde da última quinta-feira (26), a Seleção Brasileira sofreu uma derrota por 2 x 1 diante da forte equipe da França, no penúltimo amistoso da última Data FIFA, antes da Copa do Mundo.. Embora o resultado negativo não tenha sido totalmente inesperado já que a equipe ainda passa por um período de testes e ajustes, o fraco desempenho e a evidente falta de organização em campo acenderam um sinal de alerta aos analistas.
Entretanto, há um sinal de alerta que permanece ligado há bastante tempo e que, ao que parece, vem sendo constantemente ignorado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), trata-se da perda do sentimento de pertencimento que, por décadas, uniu o povo brasileiro à sua Seleção.
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Tradições que perderam força
Os mais antigos, assim como eu, lembram bem de como a aproximação de uma Copa do Mundo transformava o clima nas ruas. Vizinhos se organizavam para fazer rateios e pintar as guias e calçadas de verde e amarelo, além de enfeitar as ruas com bandeirolas e outros adereços nas cores do país. Nos dias de jogo, o futebol se tornava um evento, famílias se reuniam, muitas vezes organizando churrascos ou almoços especiais para assistir às partidas e torcer juntas pela Seleção.
Hoje, porém, esse tipo de mobilização já não é visto com a mesma intensidade que marcava as décadas de 90 e 2000. A atmosfera festiva que tomava conta das cidades parece ter se enfraquecido ao longo do tempo. Talvez o momento que mais se aproximou daquele antigo espírito tenha sido a Copa do Mundo de 2014, realizada aqui no Brasil, quando, impulsionada pelo fato de sediar o torneio, a população voltou a demonstrar a empolgação que antes era tão característica do país.
A pergunta que paira no ar é incômoda, mas necessária: por que o brasileiro parece cada vez mais distante da própria Seleção? Seria apenas consequência de uma fase sem títulos expressivos ou existiriam motivos mais profundos para esse afastamento?
É claro que a ausência de conquistas relevantes e de atuações empolgantes contribui para desanimar o torcedor. No entanto, reduzir o problema apenas aos resultados seria simplificar uma questão muito mais complexa. Um dos fatores mais evidentes é a crescente falta de identificação entre a torcida e os jogadores que vestem a camisa amarelinha.
Distância entre o torcedor e os jogadores
Hoje, a maior parte dos atletas convocados atua em clubes europeus. Para muitos brasileiros, esses nomes são pouco familiares. Com exceção de algumas estrelas amplamente divulgadas pela mídia como Vinícius Jr., Militão ou Casemiro, boa parte dos jogadores permanece distante do cotidiano do torcedor comum.
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É verdade que as gerações mais jovens, sempre conectadas às redes sociais e às transmissões internacionais, acompanham de perto o futebol europeu e reconhecem esses atletas. Contudo, esse fator perde força quando se observa o perfil demográfico do país. Segundo o Censo do IBGE de 2022, vivemos em uma sociedade “envelhecida”, onde uma parcela significativa da população brasileira é composta por adultos que já possuem outras prioridades no cotidiano.
Nessa faixa etária, muitos acompanham apenas o time do coração, enquanto outros acabam se afastando do futebol por falta de tempo ou mesmo falta de acesso.Assim, cria-se uma lacuna entre quem entra em campo e quem está nas arquibancadas ou diante da televisã
A Seleção era o espelho e a globalização mudou esse reflexo
Essa realidade contrasta com o que acontecia em um passado não tão distante. Durante muito tempo, os jogadores da Seleção eram conhecidos pelo torcedor antes mesmo de vestirem a camisa do Brasil. Eles brilhavam nos gramados nacionais, construíam histórias em seus clubes e se tornavam ídolos de diferentes torcidas.
Um exemplo dessa afirmação foi a Seleção pentacampeã de 2002, que contava com atletas que já possuíam forte identificação com o público. Kaká era ídolo do São Paulo, Adriano Imperador havia se consagrado no Flamengo e Ronaldinho Gaúcho encantava o país com sua passagem pelo Grêmio, além do técnico Luiz Felipe Scolari, o Felipão, exaltado por conquistas no Palmeiras, entre tantos outros nomes.
Essa proximidade fazia com que a Seleção criasse uma conexão natural com os torcedores, unindo diferentes torcidas em torno de um mesmo sentimento, fora que não parecia distante; ela era vista como uma extensão do próprio futebol vivido no país.
Com o avanço da globalização e o poder financeiro cada vez maior das ligas europeias, esse cenário mudou drasticamente. Hoje, jovens promessas deixam o Brasil ainda muito cedo, muitas vezes antes de se tornarem conhecidos pelo grande público ou de escreverem capítulos marcantes nos clubes que os revelaram.
Assim, esses jogadores acabam desenvolvendo praticamente toda a sua carreira profissional no exterior, tornando-se estrelas em estádios europeus, mas permanecem figuras distantes para boa parte da torcida brasileira.O resultado é uma equipe formada por grandes talentos, mas que, para muitos, parece cada vez mais estrangeira dentro do próprio país, o que acaba enfraquecendo o vínculo emocional entre o torcedor e a Seleção.
A urgência de recuperar a conexão
Há um ditado popular que afirma que “de médico e louco todo mundo tem um pouco”. No Brasil, talvez seja possível acrescentar algo mais: todo brasileiro também acredita ter um pouco de técnico de futebol dentro de si.
Por isso, discutir caminhos para recuperar a identificação entre Seleção e torcida é inevitável e urgente. Uma possível estratégia seria ampliar o olhar para jogadores que atuam no futebol brasileiro, permitindo que o torcedor reconheça em campo atletas mais próximos de sua realidade.
Talvez esses jogadores não tenham a mesma experiência internacional de quem atua há anos na Europa. No entanto, o que certamente não lhes faltará é entrega, dedicação e o desejo de transformar a oportunidade em um passo decisivo na carreira. Afinal, vestir a camisa da Seleção Brasileira ainda representa uma vitrine poderosa para o futebol mundial.
Se nenhuma mudança acontecer, o distanciamento entre a Seleção e o torcedor tende a crescer ainda mais. E isso pode significar a perda de algo que, durante décadas, foi parte fundamental da identidade cultural do país: o sentimento coletivo de que a Seleção Brasileira pertence a todos os brasileiros.
Diante desse cenário, a questão permanece aberta:a CBF e os responsáveis pelo futebol nacional buscarão caminhos para reconstruir essa conexão ou continuarão ignorando um sinal de alerta que já está aceso há muito tempo? Só o tempo dirá…

