Na última semana, a ORB Sports questionou o nível de profissionalização do Ceará na gestão de sua equipe de futebol feminino. Poucos dias depois, notícias sobre atrasos salariais de até três meses das atletas ganharam destaque na mídia esportiva. Além disso, foram divulgadas informações sobre um cronograma de treinamentos à distância, já que as jogadoras não estariam comparecendo às atividades presenciais. O clube, no entanto, afirmou que movimentações estão sendo feitas para que a situação seja solucionada.
Atrasos salariais e crise
As Meninas do Vozão, às vésperas da estreia no Campeonato Cearense, passam por mais uma grave crise estrutural. Com salários atrasados há alguns meses, a equipe, que recentemente aceitou o convite para participar da segunda edição da Copa Maria Bonita, teve seus treinos presenciais suspensos. Apesar disso, informações coletadas pela ORB garantem que a atitude não se tratou de uma greve, mas sim de uma espera por respostas. Algumas atletas, inclusive, pararam de frequentar os treinamentos por não poderem custear o deslocamento diário.
Um cronograma de treinamentos online foi montado pela comissão técnica para que o grupo continuasse, de alguma forma, trabalhando em prol de seus objetivos. Na última quarta-feira (30), um treino presencial voltou a ser realizado, mas sem o elenco completo. É importante destacar, também, que a falta de pagamentos não se restringe apenas ao grupo de jogadoras.
Apesar de a crise ser generalizada, situações como essa exemplificam que projetos frágeis, como o da modalidade feminina do Ceará, são sempre os mais prejudicados em momentos complexos dessas instituições. Ironicamente, mesmo não tendo a maior folha salarial, não usufruindo das melhores estruturas de treinamentos e jogos e, principalmente, não encontrando amplo respaldo interno, é a primeira categoria a ser prejudicada por essas más gestões.
Em entrevista para o programa “Jogada 3”, da Rádio Verdinha, João Paulo, presidente do Ceará, expôs que está buscando regularizar a situação do elenco de futebol feminino e que não pretende finalizar as atividades da modalidade mais uma vez.
“Eu sei que a equipe já nos deu muitas alegrias, um time que já chegou a ser campeão brasileiro. E realmente, dentro dessa realidade, a gente ajustou. Eu estou trabalhando, mas eu não pretendo encerrar a modalidade no clube, não”, comentou João Paulo.
Saídas de atletas em um momento de crise
O retorno das jogadoras Anayssa e Pissaia para a disputa do estadual trouxe boas impressões para o torcedor alvinegro, mas, apesar da não divulgação do Ceará, algumas saídas promissoras foram como um banho de água fria.
A ORB Sports procurou o Ceará e questionou a regularização dessas saídas. Como resposta, o Alvinegro explicou que todas as atletas que estão disputando outras competições e por outros times foram, sim, desligadas oficialmente da equipe cearense. Algumas, a comissão entendeu que o ciclo havia chegado ao final; já outras saíram por propostas melhores. Ainda, ao ser questionado se a crise interna foi determinante para alguma dessas quebras de ciclos, foi respondido que a questão salarial, reconhecida oficialmente pelo clube, não foi determinante para nenhuma das saídas.
Em entrevista exclusiva com uma das jogadoras que deixaram o Ceará recentemente, a zagueira Moana, atualmente no Filadélfia, de Governador Valadares, disputando o Campeonato Mineiro, afirmou que, no seu caso, a saída aconteceu pelo recebimento de uma melhor proposta profissional.
“Eu quis sair de portas abertas. Eu nunca havia saída da região, eu queria uma nova experiência, jogar contra outros clubes, sair de casa pela primeira vez. Os meus pais abraçaram a oportunidade, meu empresário também e viemos arriscar, deixar que outras pessoas vissem meu futebol”, explicou.
Revelada nas categorias de base das Meninas do Vozão, Moana entendeu que esse era o momento de sair do seu estado natal e buscar por novas oportunidades. A atleta ainda, comentou sobre as notícias em volta de seu ex-clube.
“A situação atual (do Ceará Feminino) é muito triste, mas eu amo o cube, tenho muito carinho pela comissão”, finalizou.

Patrocínios e investimentos
O dirigente João Paulo afirmou, algumas vezes, que está prestes a fechar acordo com bons patrocinadores, que poderão mudar a situação financeira do Ceará. Acontece que nunca foi falado sobre a procura por um patrocínio dedicado ao futebol feminino do clube. Ao reiterar que a capital Fortaleza receberá o maior evento esportivo feminino do mundo em 2027, é difícil acreditar que não existem marcas interessadas em investir neste projeto.
Fortaleza receberá nove jogos, contando com a passagem do Brasil em momento decisivo na Copa do Mundo, e, enquanto clubes de cidades que nem ao menos terão este privilégio ganham força na campanha por investimento diante do Mundial Feminino, o Ceará coleciona apenas notícias ruins.
Além de esperar pelos resultados do futebol masculino para beneficiar, com uma pequena parte, o feminino, é importante que exista um planejamento independente para que o projeto, enfim, funcione.

