Poucas seleções chegam a uma Copa do Mundo carregando uma mistura tão grande de expectativa e pressão quanto a Inglaterra. Mesmo sendo dona de uma das ligas mais famosas do planeta e uma tradição centenária no futebol, a seleção inglesa vive uma espera que já dura seis décadas. Esse momento se estende desde 1966, quando “Os Três Leões” levantaram o troféu mais cobiçado do futebol mundial.
Considerada o berço do futebol, a Inglaterra parecia destinada a iniciar uma dinastia após conquistar o título mundial em casa, em 1966. Liderada por craques como Bobby Charlton, Geoff Hurst e Gordon Banks, a seleção inglesa derrotou a Alemanha Ocidental por 4 a 2 na prorrogação, em um Wembley lotado, conquistando sua primeira e, até hoje, única Copa do Mundo. Tudo indicava que aquele seria apenas o começo de uma era de domínio.
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No entanto, a história tomou um rumo bem diferente e o que parecia o nascimento de uma potência no esporte acabou se transformando em um longo período de frustrações.
Tabu de 60 anos x Inglaterra
Nas décadas seguintes, a Inglaterra acumulou eliminações frustantes e criou uma relação complicada com a Copa do Mundo. A cada geração, surge uma nova promessa de que finalmente chegou a hora de acabar com a espera. E, a cada eliminação, a pergunta volta a aparecer: por que uma seleção com tantos talentos não consegue repetir o feito de 1966?
O peso dos 60 anos não está apenas no número. Está na comparação constante com o passado. Cada nova equipe inglesa é medida contra aquela geração campeã. Cada grande jogador que aparece, desde Paul Gascoigne a David Beckham, de Wayne Rooney a Harry Kane, carrega a expectativa de ser o responsável por devolver a Inglaterra ao topo.
Esse cenário criou além do tabu nas quatro linhas, uma espécie de pressão psicológica também. Não significa que a Inglaterra seja uma seleção sem resultados. Muito pelo contrário, as campanhas realizadas nos Mundiais recentes, mostram isso, visto que esteve muito próxima de voltar à final.
Em 2018, a seleção conseguiu o feito de quebrar um tabu que se estendia há 28 anos que era o de chegar novamente às semifinais. Já na Copa do Mundo em 2022, no Catar, garantiu vaga às quartas de final e caiu diante da França em um jogo equilibrado.
Agora em 2026, a Inglaterra vem realizando uma campanha que desperta a esperança dos torcedores ingleses. Após avançar na fase de grupos, a equipe eliminou a República Democrática do Congo nas oitavas de final, superou o México em um duelo equilibrado e garantiu vaga entre os quatro melhores ao vencer a Noruega por 2 a 1 nas quartas de final. Agora, os ingleses terão pela frente a Argentina na semifinal, em um confronto que reacende uma das maiores rivalidades da história das Copas do Mundo.
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Grande obsessão inglesa
O ideal de qualquer seleção que chega à Copa do Mundo é conquistar o prêmio máximo, mas a relação dos ingleses com o Mundial durante esse longo jejum de títulos é marcada por momentos traumáticos.
Entre os capítulos mais dolorosos dessa trajetória está a eliminação para a Argentina nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, no México. A derrota por 2 a 1 entrou para a história não apenas pelo resultado, mas pelos dois gols antológicos de Diego Maradona. O primeiro, marcado com a mão e eternizado como “La Mano de Dios”, provocou indignação entre os ingleses. O segundo, poucos minutos depois, ficou conhecido como o “Gol do Século”, quando o astro argentino arrancou do meio-campo, driblou seis adversários e marcou um dos gols mais memoráveis da história do futebol.
No entanto, em 1990, na Copa com sede na Itália, a ferida voltou a doer, porém com um trauma ainda maior: as penalidades. Isso porque a derrota para a Alemanha Ocidental foi nos pênaltis na semifinal. Em 1998 e 2006, novas eliminações nas cobranças de pênaltis, o que reforçou o estigma de fragilidade em momentos decisivos.
Por essa razão que durante muitos anos, os pênaltis foram vistos como uma maldição nacional. A Inglaterra passou a carregar o peso de uma seleção que jogava bem, mas que falhava quando a pressão aumentava.
Nos últimos anos, porém, essa narrativa começou a mudar. A nova geração inglesa mostrou mais equilíbrio emocional e competitividade em grandes torneios. Jogadores como Harry Kane, Jude Bellingham e outros talentos colocaram novamente a seleção entre as favoritas.
Diante dessa trajetória, entendemos que os ingleses não buscam apenas uma taça, eles querem colocar um ponto final na história de 60 anos de comparações, cobranças e lembranças da única conquista inglesa no Mundial. Sem dúvidas, o título de 1966 deixou de ser apenas uma conquista histórica e passou a ser também uma sombra. Quanto mais tempo passa, maior fica o peso.
Por isso, a Copa do Mundo para a Inglaterra é mais do que uma competição. Eles não jogam apenas contra seus adversários; jogam contra seis décadas de expectativa. Buscando assim, reescrever sua própria história.

