Argentina x Inglaterra: Messi e a história pesam em classificação para a final da Copa

Confronto reúne marcas do passado, decisões táticas e protagonismo argentino em Atlanta

Messi comandou a classificação argentina com duas assistências (Foto: Divulgação/Fifa)

Há rivalidades que pertencem apenas ao futebol. Outras escapam das quatro linhas e passam a fazer parte da memória de um país. Argentina e Inglaterra convivem há décadas com esse segundo tipo de confronto. Para alguns argentinos, nenhum adversário desperta sentimentos maiores do que o Brasil, o rival de todos os tempos. Para outros, porém, é a Inglaterra que ocupa um lugar singular, por uma história que mistura decisões de Copa do Mundo, feridas políticas e um dos capítulos mais emblemáticos que o esporte já escreveu.

O duelo nunca foi construído por um único episódio. Começou a ganhar contornos mais intensos em 1966, passou pela Guerra das Malvinas nos anos 1980 e encontrou em Diego Maradona o personagem capaz de eternizar a rivalidade. Em um intervalo de poucos minutos, o camisa 10 marcou o gol da “Mão de Deus” e, logo depois, o que muitos ainda consideram o mais bonito da história das Copas. Desde então, cada encontro entre argentinos e ingleses carregou um peso que dificilmente caberia apenas no placar.

Nem sempre a história esteve do lado da Argentina. Os ingleses venceram mais confrontos entre as seleções em Copas do Mundo, mas os argentinos guardam na memória justamente a vitória que mais atravessou gerações. Não por acaso, mais de quatro décadas depois da Guerra das Malvinas, o conflito ainda aparece em músicas cantadas nos estádios, em bandeiras e nas lembranças de uma rivalidade que resiste ao tempo.

Nesta quarta-feira (15), no Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, o passado ficou do lado de fora quando a bola rolou. Ignorá-lo, porém, era impossível. Argentina e Inglaterra disputavam uma vaga na final da Copa do Mundo de 2026 em um duelo que reunia dois candidatos ao título, colocava Lionel Messi diante dos ingleses pela primeira vez em um Mundial e acrescentava mais um capítulo a uma rivalidade que, para muitos, nunca tratou apenas de futebol. No fim, quem sorriu foi a Albiceleste. Orquestrada por Messi, que deu duas assistências, a Argentina virou para cima dos ingleses e garantiu o placar de 2 a 1.

No entanto, a história do caminho da classificação até demorou para ser contada. Ambos os times começaram tímidos, estudando um ao outro nos minutos iniciais, mas sem deixar as divididas de lado. Algumas chegaram ao limite, como no caso de Enzo Fernández, que poderia ter recebido dois cartões amarelos justamente pelas duas faltas cometidas no primeiro tempo. A sorte dele é que o árbitro Ismail Elfath “esqueceu o cartão” no vestiário. Mas tratou de se lembrar quando os ânimos ficaram acirrados após uma entrada dura de Elliot Anderson em Messi. Aí, sim, aplicou o amarelo. Para não se apequenar em um jogo grande, acabou fazendo o mesmo na primeira falta da Argentina.

Elliot Anderson recebeu o primeiro amarelo em uma partida recheada de faltas (Foto: Divulgação/Fifa)

Em jogo bastante equilibrado, bastava um deslize ou uma boa jogada individual para fazer a diferença e arrancar suspiros do torcedor. Isso só ocorreu no segundo tempo, graças a Julián Álvarez, que aproveitou o escorregão de Spence. Ele gingou e bateu cruzado. Pickford deu rebote, e o camisa 9 parou novamente no arqueiro. Se nada estava funcionando, a Inglaterra apostou na estratégia que, até então, não conseguia colocar em prática: a bola longa. Harry Kane precisou sair da área para ajudar na construção da jogada no meio-campo. Tagliafico até tentou cortar, mas Rogers acreditou no lance e cruzou para Gordon aparecer na frente de Romero e fazer os Três Leões rugirem com o gol.

Porém, os ingleses correram riscos. Esqueceram de jogar, recuaram bastante e, como consequência, trouxeram a Albiceleste para o ataque. Em certos momentos, a seleção da terra do rei formava uma verdadeira muralha, com seis defensores. Resistiram, mas contaram com Pickford e a trave.

Só que água mole em pedra dura, tanto bate até que fura. Furou com Enzo. Acionado por Messi e em chute de longe, aproveitou o erro de posicionamento do arqueiro. Como a vida tem suas consequências diante das escolhas, a Inglaterra foi castigada pelas próprias. Muito por Thomas Tuchel, que foi conservador quando vencia por apenas 1 a 0 e optou por colocar seis defensores em campo.

No fim, a provocação que ecoava nas arquibancadas argentinas ganhou um novo significado. O famoso “quem não pula é um inglês” deixou de ser apenas uma provocação e virou celebração. Quem pulou foi a Argentina, que, com Messi e Lautaro, carimbou a vaga na final e deixou os ingleses apenas assistindo.

ATLANTA, GEORGIA - JULY 15: Lautaro Martinez #22 of Argentina celebrates with Lionel Messi # after scoring the team's second goal during the FIFA World Cup 2026 Semi Final match between England and Argentina at Atlanta Stadium on July 15, 2026 in Atlanta, Georgia. (Photo by Patrick Smith - FIFA/FIFA via Getty Images)
Foto: Divulgação/Fifa

Em busca da tetra

A Argentina tem se acostumado a desafiar o roteiro. Quando o jogo pede controle, ela encontra sobrevivência. Quando a partida parece escapar, aparece a resposta. Foi assim mais uma vez: com valentia, buscou sua quarta virada nesta Copa e manteve aceso o sonho do tetracampeonato.

Agora, Messi e companhia chegam ao último capítulo diante da Espanha, uma seleção que não conhece derrota há dois anos e tenta transformar sua nova geração em mais uma página dourada da história. Neste domingo (19), às 16h (de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey, a Argentina terá a missão de derrubar a hegemonia da Roja, campeã mundial na última vez em que disputou uma final de Copa.