Copa do Mundo escancara as feridas ainda abertas do continente africano

Copa do Mundo
Foto: Divulgação/FRMF

A Copa do Mundo sempre foi vista como um momento em que fronteiras desaparecem e o futebol sempre mostrou a força para unir todos em torno do esporte. Durante décadas, quando uma seleção africana seguia viva no torneio, torcedores de diferentes países do continente costumavam adotar aquele time como representante de uma esperança coletiva. Essa identificação fazia parte do ideal do pan-africanismo: a crença de que os povos africanos compartilham uma história e interesses comuns.

No entanto, essa visão vem se tornando mais complexa, principalmente analisando os dias atuais. Com o crescimento das redes sociais, a intensificação dos debates políticos e as diferentes posições dos governos africanos em temas internacionais fizeram com que a solidariedade entre as nações do continente deixasse de ser automática. Hoje, muitos torcedores avaliam não apenas o desempenho esportivo de uma seleção, mas também as decisões políticas e diplomáticas do país que ela representa.

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Futebol e política por um fio

Esse movimento mostra que o esporte nunca está completamente separado da política. Embora o futebol tenha o poder de aproximar pessoas, ele também reflete tensões, disputas e diferenças que existem fora dos estádios.

Apesar da campanha histórica das seleções africanas na Copa do Mundo de 2026, o desempenho dentro de campo também evidenciou antigas tensões políticas e sociais do continente. O avanço recorde de nove das dez equipes africanas à fase eliminatória não foi suficiente para gerar um apoio irrestrito entre torcedores de diferentes países.

Em muitos casos, o desempenho esportivo passou a ser avaliado à luz das decisões políticas de seus respectivos governos, ainda mais em um mundo cada vez mais conectado, posicionamentos sobre conflitos internacionais, direitos humanos e alianças estratégicas influenciam a forma como as seleções são percebidas

A África do Sul é um dos exemplos mais emblemáticos dessa contradição. Reconhecida mundialmente por seu papel na luta contra o apartheid e por ter sediado a primeira Copa do Mundo realizada em solo africano, o país também enfrenta críticas pelas recorrentes manifestações de xenofobia contra imigrantes vindos de outras nações do continente.

Durante o Mundial, a repatriação de centenas de nigerianos reacendeu esse debate e provocou reações entre torcedores africanos, que passaram a enxergar a seleção sul-africana como um reflexo das políticas migratórias adotadas pelo governo.

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Marrocos também viu sua imagem mudar em relação ao apoio continental recebido na Copa de 2022. Se antes a seleção era celebrada por representar a África e por adotar posicionamentos que aproximavam o país de outras causas internacionais, nos anos seguintes o cenário se tornou mais complexo.

As disputas envolvendo o Saara Ocidental, denúncias de racismo contra imigrantes africanos e controvérsias em competições organizadas pela Confederação Africana de Futebol enfraqueceram parte da solidariedade que havia marcado sua campanha no Catar.

Além das questões internas do continente, a edição de 2026 da Copa do Mundo também sofreu influência de fatores externos. Entre elas, a política migratória dos Estados Unidos, um dos países-sede da competição, gerou críticas após dificuldades enfrentadas por árbitros e torcedores africanos para entrar no país.

Casos de deportações, retenções em aeroportos e negativas de visto repercutiram em diversas nações africanas e reforçaram a percepção de que obstáculos políticos continuam interferindo diretamente na participação do continente em grandes eventos esportivos.

Dessa forma, a Copa do Mundo de 2026 demonstrou que o futebol continua sendo um poderoso instrumento de representação política. Mais do que apoiar uma seleção por sua origem continental, muitos torcedores passaram a condicionar esse apoio às posturas adotadas por seus governos, revelando cada vez mais uma postura seletiva influenciada por questões sociais, diplomáticas e humanitárias.