O Athletic Bilbao viveu um momento incomum antes da partida contra o Sevilla, no último sábado (22). Unai Simón, Aymeric Laporte e Nico Williams voltaram a San Mamés como campeões do mundo pela Espanha e receberam uma homenagem do clube. Os três atravessaram um corredor formado pelos jogadores das duas equipes e levaram a Copa do Mundo ao gramado, mas a celebração foi acompanhada por uma mistura de aplausos e vaias vindas das arquibancadas.
A reação chamou atenção justamente porque os três jogadores são formados pelo Athletic e tiveram participação importante na campanha espanhola no Mundial. Simón, Laporte e Nico foram peças relevantes na conquista, enquanto Luis de la Fuente, também homenageado, é ex-jogador do clube e comandou a seleção no título.
Por que parte da torcida vaiou os jogadores?
As vaias não tiveram relação com uma atuação ruim dos jogadores, nem com o resultado da partida. O protesto aconteceu durante a homenagem, antes de a bola rolar, e partiu principalmente de um setor da torcida de San Mamés.
O motivo está ligado à identidade do Athletic e à relação de parte de sua torcida com a seleção espanhola. O clube possui uma ligação histórica muito forte com o País Basco e mantém uma política esportiva singular, utilizando apenas jogadores nascidos ou formados no território basco. Essa identidade faz com que uma parcela da torcida defenda maior reconhecimento para a Euskal Selekzioa, a seleção do País Basco.

Antes mesmo da homenagem, houve mobilização de torcedores contrários à forma como o reconhecimento seria realizado. Grupos e sócios defenderam que o momento também servisse para reivindicar maior espaço para a seleção basca, transformando a celebração dos campeões espanhóis em um debate sobre identidade.
San Mamés ficou dividido
Apesar das imagens das vaias terem ganhado grande repercussão, é importante não dizer que todo o estádio vaiou os jogadores. A reação predominante foi de aplausos, com milhares de torcedores de pé para receber os campeões mundiais.
Os assobios vieram principalmente da Grada de Animación, enquanto outras partes de San Mamés aplaudiram Simón, Laporte e Nico. Por isso, o episódio foi marcado pela divisão de opiniões entre os torcedores.
A cena acabou resumindo uma questão que ultrapassa o futebol. Para uma parte da torcida, vestir a camisa da seleção espanhola não representa necessariamente a mesma identidade que defender o Athletic ou a seleção basca. As vaias, portanto, foram direcionadas ao contexto da homenagem e ao símbolo representado pela Copa do Mundo da Espanha, e não necessariamente a uma rejeição aos jogadores enquanto atletas do Athletic.
Uma contradição que diz muito sobre o Athletic
O episódio ganhou ainda mais peso porque os três jogadores homenageados são justamente exemplos da filosofia do Athletic. Simón, Laporte e Nico foram formados em Lezama e chegaram à seleção espanhola depois de construírem suas carreiras no clube.
O próprio Athletic celebrou a conquista mundial dos três em julho e destacou a ligação deles com a formação do clube. Nico deu a assistência para o gol do título, Simón recebeu a Luva de Ouro e Laporte foi considerado um dos principais defensores da competição.
É justamente aí que está a contradição: os jogadores representam, ao mesmo tempo, o sucesso da formação basca e a seleção espanhola que parte daquela torcida não reconhece como sua identidade nacional.
Por isso, a homenagem acabou se transformando em algo maior do que uma simples celebração esportiva. A Copa do Mundo no centro do gramado de San Mamés colocou frente a frente duas identidades que convivem dentro do mesmo estádio: o orgulho pelos jogadores formados pelo Athletic e a defesa de uma representação esportiva própria do País Basco.
A homenagem aconteceu antes de uma noite ruim para o Athletic
Depois da cerimônia, a bola rolou e o Athletic teve uma noite complicada. A equipe perdeu por 3 a 1 para o Sevilla, em partida que marcou a estreia oficial de Edin Terzic no comando do clube.

A expulsão de Yuri Berchiche aos 11 minutos dificultou a partida para os donos da casa, que ficaram com um jogador a menos durante praticamente todo o confronto. O Sevilla aproveitou a vantagem numérica e construiu a vitória.
O resultado aumentou a frustração em San Mamés, mas é importante separar os acontecimentos: as vaias aos campeões mundiais ocorreram antes do jogo e estavam relacionadas ao contexto da homenagem, enquanto a derrota e os problemas apresentados pela equipe aconteceram posteriormente.
No fim, a cena mais marcante da noite não foi apenas a derrota do Athletic. Foi a imagem de três jogadores criados no próprio clube levantando a Copa do Mundo conquistada pela Espanha diante de uma torcida dividida entre celebrar seus ídolos e reafirmar uma identidade que, para parte dos torcedores, vai além da seleção espanhola.

