O descaso por trás da maior goleada na Libertadores Feminina até aqui

Impasses com vistos e calendário apertado colocam em debate as condições oferecidas aos clubes participantes

Foto: Divulgação/Corinthians

Para os amantes de futebol, não é difícil encontrar relatos sobre a precarização à qual a Conmebol, Federação Sul-Americana de Futebol, submete as equipes participantes. Casos de racismo, com punições brandas, e pouca qualidade na estrutura dos confrontos são alguns dos motivos que descredibilizam a apaixonante Copa Libertadores da América.

Quando se trata de futebol feminino, a situação consegue ficar ainda mais delicada. O arcaico modelo da competição, com sede única e jogos praticamente seguidos, prejudica a qualidade e a fomentação do evento. O Brasil, apesar do desenvolvimento tardio em prol do futebol de mulheres, ainda performa à frente dos outros países da América do Sul, e é normal que sejam esperadas vitórias das brasileiras contra algumas equipes ainda em desenvolvimento, mas, quando são postas em campo outras barreiras, a vitória deixa de ser apenas uma diferença de qualidade e vira uma medida de forças desproporcional.

Foto: Divulgação/Corinthians

Menos de 48 horas entre dois jogos

O Caracas FC, às vésperas de sua viagem ao Equador, emitiu uma nota, através de suas redes sociais oficiais, informando problemas com vistos de atletas para a entrada no país que sediava a Libertadores Feminina de 2026. Diferentemente dos times do Brasil, a equipe venezuelana necessita de visto para chegar a Quito.

O clube afirmou que a documentação necessária de toda a delegação foi prontamente organizada com antecedência, mas, mesmo assim, impasses surgiram para que a viagem acontecesse. O time expôs a dificuldade e a insegurança de chegar a achar que, mesmo conquistando a vaga, não conseguiria participar da competição.

“Nossa instituição cumpriu, de maneira rigorosa, transparente e tempestiva, todos os trâmites, exigências e processos estabelecidos pelos órgãos governamentais. No entanto, ainda não recebemos resposta das autoridades equatorianas quanto à concessão dos vistos para a entrada no país, o que inviabiliza nossa participação na principal competição sul-americana de clubes femininos”, disse o Caracas.

O atual campeão venezuelano conseguiu embarcar, mas sem algumas de suas jogadoras, comprometendo o elenco, que, no confronto contra o Corinthians, teve apenas três atletas no banco de reservas. A Conmebol adiou o primeiro compromisso do time, que originalmente aconteceria na quinta-feira (15) e aconteceu na madrugada da sexta-feira (16). Menos de 48 horas depois, no domingo (18), o Caracas voltou a campo, desta vez contra as Brabas do Timão.

A camisa 10 do Corinthians, Gabi Zanotti, participante da goleada, em entrevista pós-jogo, comentou sobre a situação das adversárias.

“A gente sabe que é desumano o que aconteceu aqui hoje, elas jogaram com menos de 48 horas”, disse a líder corinthiana.

Caracas eliminado pelo placar e pela deslealdade da organização

Foto: Divulgação/CFC Femenino

Falar que o Caracas FC não teria sido eliminado caso a Conmebol tivesse cumprido com suas responsabilidades diante da situação do clube não é a afirmação procurada. O histórico esportivo mostra que o time não era, de fato, um dos favoritos ao título, mas, independentemente de análises, a equipe deveria ser assegurada pelo comprometimento da Conmebol.

Não oferecer a mesma disponibilidade, segurança e tempo para todos os participantes é ser desleal diante da maior competição feminina da América do Sul. Competição essa que, muitas vezes, deixa a desejar até para as nacionais brasileiras, que possuem muito mais estrutura.

O time já está matematicamente eliminado por ter perdido, em sua estreia, para o Independiente Santa Fe (Colômbia) por um placar de 2 a 3 e para o Corinthians por 7 a 0, e se despede do Equador sem ao menos ter solucionado todos os seus problemas para chegar ao país.