As novas regras do futebol brasileiro, inspiradas em medidas utilizadas na Copa do Mundo de 2026, estrearam na 23ª rodada do Brasileirão, disputada entre sábado (15) e segunda-feira (17). Entre as mudanças estão medidas para reduzir a cera, limitar a pressão de jogadores sobre a arbitragem e ampliar as situações de atuação do VAR. Uma das regras adotadas no Mundial, porém, ficou de fora: a parada obrigatória para hidratação.
Na Copa, a interrupção foi aplicada independentemente da temperatura. Já no futebol brasileiro, onde foi regra nos primeiros três meses do ano, ela segue condicionada a critérios específicos e não integra o novo pacote anunciado pela CBF. Na Copa Libertadores e na Sul-Americana, a paralisação é obrigatória desde o começo do ano. A decisão contrasta com a percepção dos capitães dos times da Série A consultados pelo Terra FC antes da Copa.
“É muito importante, principalmente para escutar o treinador e descansar um pouco”, declarou o meio-campista Rodrigo Garro, do Corinthians. O zagueiro Gustavo Gómez, do Palmeiras, também destaca que o intervalo cria uma oportunidade importante de ajuste com a comissão técnica. “É bom ter alguns minutos com o treinador durante o jogo”, afirma.
Para os atletas, a interrupção vai além da reposição de líquidos. Ela influencia diretamente o ritmo das partidas, a recuperação física dos jogadores e até o aspecto tático das equipes. O debate ganhou ainda mais relevância em um cenário de calor extremo e eventos climáticos cada vez mais frequentes, que afetam a prática esportiva.
“O calendário no Brasil é muito corrido e os jogos são cada vez mais intensos. Qualquer iniciativa para que os jogadores possam se recuperar, ainda que por alguns minutos, é válida para manter a qualidade da partida e a integridade física dos atletas”, avaliou o goleiro Cleiton, do Red Bull Bragantino.
O zagueiro Bruno Leonardo, que deixou a Chapecoense no final de julho, acredita que a manutenção da pausa é uma medida de proteção física e também de qualidade do jogo. “É totalmente necessário. Acredito que a qualidade das partidas até aumente. Tenho acompanhado que, após as paradas, os times voltam melhores fisicamente e mais organizados”, diz.
As mudanças feitas nas equipes também são sentidas pelo zagueiro Marllon, do Remo. “O intuito seria a hidratação, mas os times acabam usando como parada técnica”, aponta.
O volante Baralhas, do Vitória, considera a pausa importante em dias de forte calor, pois sabe que ela interfere no andamento do jogo. “Quando está muito quente, precisa parar pra hidratar. Mas, se uma equipe está melhor que a outra, a pausa dá uma esfriada e pode equilibrar a partida”, comentou.
O zagueiro santista Lucas Veríssimo segue linha parecida. “Sou favorável, mas não acho que precise ser algo obrigatório em qualquer situação. Faz mais sentido em jogos com temperaturas altas”, afirmou. O goleiro Santos, do Athletico Paranaense, também entende que a necessidade varia. “Em dias e regiões mais quentes, acho importante. Em temperaturas mais amenas, não vejo necessidade”, disse.
Se o clima muda, o jogo muda
O aumento das temperaturas fica evidente na última década: desde 2015, oito anos estão entre os dez mais quentes já registrados no país desde o início da série histórica do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), em 1961. O cenário acompanha uma tendência global ainda mais expressiva: segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), os últimos 11 anos foram, consecutivamente, os 11 mais quentes já registrados no planeta.
“A pausa protege o bem-estar e o desempenho dos jogadores, mas possui um potencial muito maior: ajudar a torcida a compreender por que o futebol já precisa se adaptar a um planeta mais quente. Não podemos transformar esse momento apenas em uma janela comercial, como aconteceu na Copa do Mundo, quando ela virou um espaço publicitário e passou a ser vaiada nos estádios. Esse enorme poder de mobilização pode ajudar inclusive as marcas que trabalham a sustentabilidade e produtos alinhados com as tecnologias ecológicas disponíveis”, diz Laura Moraes, diretora de campanhas do Terra FC.
O modelo foi testado durante o Campeonato Paraense de 2026. A Federação Paraense de Futebol (FPF), em parceria com o Terra FC, transformou as pausas para hidratação das dez rodadas do estadual na Parada pelo Clima. A ação mobilizou os 12 clubes participantes e abordou temas como calor extremo e saúde, escassez de água, eventos climáticos extremos, resíduos e a relação entre clima e futebol, com vídeos nos telões, mensagens nos estádios e nas transmissões e faixas em campo.
As ameaças da mudança climática para o futebol não se resumem ao calor extremo. Segundo um estudo encomendado pelo Terra FC, 78% dos clubes das Séries A, B e C estão em municípios com alto risco de eventos climáticos severos até 2050. O levantamento apontou que enchentes, ondas de calor, incêndios e secas podem provocar perdas de até R$ 70 bilhões ao futebol brasileiro nas próximas décadas.
O Terra FC atua junto aos clubes, federações e torcedores para aumentar a conscientização sobre o tema e promover ações práticas que contribuam para a mitigação dos efeitos do clima sobre o futebol. Como parte dessas ações, promove a ECOFUT (Conferência do Futebol pelo Planeta) em diversos estados do país, reunindo dirigentes, especialistas e representantes de clubes para mostrar que a sustentabilidade não está ligada apenas à responsabilidade ambiental, mas também à geração de valor, ao fortalecimento de marca e a novas oportunidades comerciais.
Já realizada em São Paulo e no Pará, a série de eventos deverá passar por ao menos três outros estados ainda em 2026, incluindo o Rio de Janeiro.

