“O fim do futebol brasileiro”, clubes brasileiros dizem que o futebol acaba sem as bets

Ameaça de medida provisória contra cassinos online provoca manifesto de federações e times, enquanto brasileiros acumulam bilhões em perdas nas apostas

Manifesto dos clubes de futebol contra a regulação das casas de apostas. Foto: Divulgação

Sob o lema “O futebol é quem acaba”, clubes e federações divulgaram, em 17 de setembro, um manifesto contra a possibilidade de o governo federal restringir o mercado de apostas. A publicação foi feita no perfil da Federação Paulista de Futebol, em parceria com Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos, e republicada por Botafogo, Fluminense e Vasco. O texto afirma que o dinheiro das casas autorizadas virou uma das principais fontes de receita do esporte no país.

O ápice foi a notícia de que o Planalto prepara uma medida provisória. Na prática, a proposta em análise não proibiria as apostas esportivas, mas poderia atingir os jogos de cassino online, apontados como a principal fonte de receita das operadoras. O texto deve manter as apostas esportivas e os contratos de patrocínio já firmados. O texto oficial ainda não havia sido publicado nas últimas apurações, e o seguia em discussão dentro do próprio governo.

Os patrocínios

Em poucos anos, as bets ocuparam o espaço mais nobre dos uniformes. Atualmente 13 clubes da Série A tinham contratos de patrocínio master com casas de apostas, numa conta de cerca de R$ 1 bilhão. O Palmeiras recebe R$ 100 milhões por ano da Sportingbet, o equivalente a 5,6% de suas receitas. O São Paulo elevou de R$ 80 milhões para R$ 95 milhões o patrocínio da Superbet em 2026.

Nem os próprios especialistas são unânimes sobre o tamanho do abalo. A saída das bets não seria “o fim do futebol brasileiro”, embora causasse efeitos relevantes no curto prazo. Do outro lado da mesa, Superbet e Esportes da Sorte já enviaram notificações preventivas a clubes sobre a possibilidade de rescindir contratos.

O caso Vai de Bet

Se há um episódio que resume os riscos dessa dependência, é o do Corinthians. O contrato com a Vai de Bet, de R$ 360 milhões por três anos, foi celebrado como o maior patrocínio da história do futebol brasileiro. A patrocinadora rescindiu o acordo de forma unilateral, acionando a cláusula anticorrupção após a Polícia Civil investigar o repasse de parte da comissão a uma empresa de fachada.

Em julho de 2025, a Justiça paulista aceitou a denúncia do Ministério Público contra o então presidente afastado Augusto Melo, dois ex-dirigentes e um empresário, por associação criminosa, lavagem de dinheiro e furto. Foi acordado uma indenização de R$ 40 milhões ao clube. Melo diz que as acusações são falsas. A investigação também apontou que parte do dinheiro da comissão chegou a uma conta ligada ao PCC, sem indicar transferência direta do clube ao crime organizado. Não localizei desfecho do julgamento nas fontes consultadas.

A conta do outro lado

Enquanto os clubes contabilizam R$ 1 bilhão por ano, as famílias fazem outra conta. Segundo o Comsefaz, com base em dados do Banco Central, os brasileiros perderam R$ 62,5 bilhões nas bets, média de R$ 4,7 bilhões por mês entre outubro de 2024 e março de 2026, cerca de 0,68% da renda das famílias. Só a média mensal equivale a quase cinco vezes o valor anual dos patrocínios da Série A.

O estudo indica ainda que pessoas com 35 anos ou mais e famílias com menor escolaridade são as mais vulneráveis, na contramão da ideia de que o problema atinge sobretudo jovens. Já a associação IBJR, que reúne operadores responsáveis por mais de 70% do volume legalizado, contesta as estimativas da CNC. Os números variam conforme a método, mas todos apontam para bilhões saindo do bolso do consumidor.

O argumento e o silêncio

No manifesto, os clubes reconhecem os problemas sociais das apostas e defendem fiscalização mais rigorosa, mas não uma mudança abrupta. Argumentam que uma proibição empurraria apostadores para plataformas clandestinas. Não há, no documento divulgado, proposta própria para reduzir o endividamento das famílias que pagam essa conta.