Livros indicados por Gustavo Scarpa inspiram clube de leitura entre atleticanos

Resenha do meia sobre clássico de Tolstói viraliza nas redes e inspira torcedores do Galo a criar clube de leitura

Gustavo Scarpa em seu canal no Youtube. Foto/Canal do Scarpinha
Gustavo Scarpa em seu canal no Youtube. Foto: Reprodução

Gustavo Scarpa passou a influenciar os torcedores do Atlético-MG de uma forma diferente. Em seu canal no YouTube, o meia ajudou a colocar “A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói, entre os livros mais vendidos da Amazon no Brasil e ainda inspirou a criação de um clube de leitura formado por atleticanos.

O vídeo, publicado em seu canal “Canal do Scarpinha”, já ultrapassou a marca de 600 mil visualizações e aumentou as buscas na internet. Dados do Google Trends apontaram aumento nas pesquisas pelo título em setembro deste ano, período que coincide com a divulgação da resenha do jogador.

Galeitura

Foi uma aluna de 22 anos do curso de Letras da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Carolina Marques, quem tirou do papel a ideia de transformar as indicações de Scarpa em algo coletivo. Ela criou a “Galeitura”, um clube do livro voltado a atleticanos que quisessem ler as mesmas obras comentadas pelo meia e debater suas impressões entre si. O interesse foi instantâneo.

A procura cresceu tanto que o grupo inicial não deu conta: foi preciso abrir um formulário para organizar a fila de interessados, que em menos de 24 horas já somava quase 2 mil respostas. Hoje, a Galeitura reúne cerca de 54 mil seguidores nas redes sociais, um número expressivo para uma iniciativa de torcedor que nasceu sem qualquer estrutura por trás.

O caminho é simples de entender: a curiosidade despertada por uma resenha no feed de um jogador vira porta de entrada para um universo que vai além do futebol. É uma transformação que acontece aos poucos, torcedor por torcedor, mas já é suficiente para colocar livros no meio de conversas que antes giravam só em torno da bola.

O movimento também rendeu resposta do lado rival. Nas redes sociais, torcedores do Cruzeiro começaram a organizar uma iniciativa parecida, batizada de “Cruleitores”, com o objetivo de estimular a leitura entre os celestes. A página ainda está restrita a uma rede social, o X, e se propõe a unir futebol e literatura.

Um país cada vez mais distante dos livros

A urgência do projeto tem respaldo em números. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, feita pelo Instituto Pró-Livro em parceria com o Ministério da Cultura, mostra um país de mais de 200 milhões de habitantes com apenas 93,4 milhões de leitores, gente que leu ao menos parte de um livro nos três meses anteriores ao levantamento. Isso equivale a 47% da população. Do outro lado, os não leitores somam 53%, mais da metade do país.

O levantamento aponta ainda um problema que vai além do acesso ao livro: parte da queda no hábito de leitura está ligada à dificuldade de concentração e de compreensão de texto, o que acende um alerta sobre o analfabetismo funcional. Ler palavras e entender o que elas significam são coisas diferentes, e o Brasil perde terreno nas duas frentes ao mesmo tempo.

Nesse cenário, iniciativas como a Galeitura dificilmente resolvem um problema de escala nacional, mas mostram um caminho possível: aproximar a leitura de espaços onde ela não é vista como obrigação, e sim como afinidade. Se o futebol consegue mobilizar milhões de pessoas todos os fins de semana, experiências como essa sugerem que parte dessa energia também pode ser direcionada para outros hábitos, inclusive o de abrir um livro.