Clássico expõe escolhas de Soso e problemas do Sport nos Aflitos

Em duelo de opostos na tabela, Timbu aproveita apatia e falhas táticas do Leão, vence por 3 a 1 e encerra a sequência rubro-negra; leitura equivocada no intervalo desmonta o meio-campo visitante

Atletas segundos antes do apito inicial. Foto: João Moraes / ORB Sports

O Estádio dos Aflitos foi o palco do 574º Clássico dos Clássicos na tarde do último sábado (26), em partida válida pela Série B do Campeonato Brasileiro. Em mais de 117 anos de história, a rivalidade entre Náutico e Sport raramente testemunhou um contraste tão acentuado entre a expectativa e a realidade dentro de campo. Enquanto o Náutico chegava sob forte pressão — com a demissão da comissão técnica de Hélio e Guilherme dos Anjos durante a semana —, o Sport vinha embalado pelo triunfo sobre o Juventude e ostentava o favoritismo no confronto.

Contudo, a bola rolando desmentiu as probabilidades. O Náutico superou o momento de turbulência, foi cirúrgico nas transições e aplicou 3 a 1 no placar, deixando o Leão estagnado na busca pela consolidação no grupo de cima e reacendendo os velhos alertas de desatenção e falta de competitividade rubro-negra.

Domínio estéril na etapa inicial e o castigo nos acréscimos

As propostas de jogo ficaram claras desde os instantes iniciais. O Sport buscou ter a posse de bola e pressionar a saída alvirrubra em bloco médio/alto, enquanto o Náutico optou por compactar seu setor defensivo e explorar as transições rápidas, direcionando suas investidas sobre os lados do campo.

Apesar de um início truncado e disputado metro a metro na faixa central, o Sport assumiu o controle das ações até os 40 minutos do primeiro tempo. O Leão criou oportunidades em série e parecia maduro para inaugurar o marcador, registrando maior volume ofensivo (foram 12 finalizações do Sport ao longo do primeiro tempo contra 5 do Náutico). Entretanto, a desconexão crônica que acompanha a equipe ao longo da temporada voltou a dar as caras no momento mais indigesto: aos 47 minutos, após cobrança de escanteio, Vinicius desviou de cabeça para abrir o placar nos Aflitos.

Substituições de Soso que desmontaram o Sport

Se o gol sofrido nos acréscimos já havia abalado o lado psicológico rubro-negro, as decisões de Mariano Soso no intervalo decretaram o colapso tático da equipe. O treinador promoveu as entradas de Juan Alano (em retorno de lesão) e Claudinho nos lugares de Fernando Sobral e Augusto Pucci. Assim como ocorrera na derrota em Maceió diante do CRB, a leitura do comandante argentino revelou-se desastrosa.

Ao sacar Fernando Sobral — atleta de alta intensidade, poder de combate e entrega física — e escalar Juan Alano para atuar como segundo homem de meio-campo, criou-se um autêntico “buraco” na faixa central. Alano, sem características para cumprir a função requerida sem a bola, deixou a defesa desprotegida. O Náutico percebeu a brecha imediatamente e, logo aos três minutos do segundo tempo (48′), Jean Carlos ampliou a vantagem para 2 a 0.

Ineficiência na reação, tiro de misericórdia e o fantasma da gestão

Tentando corrigir o equívoco, Soso mandou Patrick de Paula a campo na vaga de Diego Hernández. O Sport retomou o controle da posse de bola, mas jogou de forma desordenada e com o relógio como inimigo. O golpe fatal veio aos 27 minutos da etapa final, após cobrança de escanteio e briga dentro da área rubro-negra, Gustavo Henrique decretou o 3 a 0. O Sport ainda descontou aos 46 minutos do segundo tempo, com Neto Pessoa, mas sem força para qualquer reação.

Mais do que o revés por 3 a 1 e o novo distanciamiento do G-6, o clássico escancarou uma pauta rotineira na Ilha do Retiro: a gestão de futebol. Os sucessivos erros do departamento de futebol ao longo da temporada ficaram ainda mais evidentes diante da grande atuação de Jean Carlos pelo Náutico — expondo a gritante carência do Sport pela figura de um verdadeiro “camisa 10”.

É bem verdade que a situação financeira do clube é delicada, enfrentando um de seus piores momentos com um passivo que beira os R$ 500 milhões. Ainda assim, a diretoria poderia ter sido mais volátil e adotado um planejamento estruturado de médio a longo prazo para o retorno à Série A. O que se viu — e se vê —, contudo, são constantes tentativas de improvisação. Para o Sport, o acesso não é apenas um objetivo esportivo, mas uma necessidade vital para a sobrevivência do clube. Insistir nos mesmos erros pode custar caro demais ao futuro rubro-negro.