Da rivalidade à selvageria: quando uma criança vira alvo

Criança rivalidade Neymar
Foto: Reprodução

No último domingo (30), Corinthians e Santos protagonizaram o Clássico Alvinegro, na Neo Química Arena, pela 25ª rodada do Brasileirão.

E, como quase sempre acontece quando dois gigantes do futebol paulista se enfrentam, não faltaram polêmicas. O Santos venceu por 1 a 0, encerrou o jejum em clássicos que se arrastava desde 2025 e, de quebra, derrubou um tabu incômodo: 15 anos sem vencer o Corinthians fora de casa pelo Campeonato Brasileiro.

Para o Peixe, uma vitória para ser celebrada. Para o Corinthians, mais uma atuação decepcionante diante de sua torcida.

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O clássico, inclusive, levou 47.099 pagantes à Neo Química Arena, registrando o melhor público do Corinthians em 2026. Um cenário que, em tese, deveria representar festa, mas foi justamente nas arquibancadas que surgiu o episódio mais lamentável do domingo.

Tudo começou com um pequeno torcedor corintiano, de apenas oito anos, que viveu um daqueles momentos que provavelmente carregará para o resto da vida: ganhou a camisa de seu ídolo, Neymar, justamente o camisa 10 do time adversário. E qual é o problema nisso? Nenhum.

É absolutamente natural que uma criança seja encantada por um jogador de futebol, independentemente do clube que ele defende. Neymar, goste-se ou não de seu estilo, de sua carreira ou de sua personalidade, é um dos maiores nomes do futebol brasileiro e desperta admiração em milhões de crianças.

O menino se emocionou, chorou ao receber a camisa e foi celebrado pelos familiares. Um momento genuíno de felicidade, daqueles que deveriam ser a essência do futebol. Uma lembrança bonita, inocente e que, em condições normais, terminaria ali. Mas aí entrou em cena a boçalidade.

A rivalidade faz parte do futebol. As provocações fazem parte do espetáculo. Cornetar o adversário, brincar com o rival e defender apaixonadamente as cores do próprio clube são elementos que tornam o futebol tão apaixonante. Mas existe uma linha e ela é muito clara, entre rivalidade e selvageria.

Xingar uma criança de oito anos porque ela admira um jogador do time adversário não é paixão. Não é fanatismo. Não é rivalidade. É, simplesmente intolerância.

E a situação foi ainda mais grave quando objetos foram arremessados na direção do garoto e de seus familiares, que precisaram ser retirados do local sob escolta policial. Adultos cercando, intimidando e hostilizando uma criança por causa de uma camisa de futebol é de uma covardia difícil de justificar.

Que tipo de torcedor se sente ameaçado por uma criança usando a camisa de um jogador adversário? Que tipo de paixão pelo clube é essa que não consegue conviver sequer com a admiração de um menino por um ídolo do futebol?

O episódio diz muito mais sobre quem praticou esse tipo de comportamento do que sobre o garoto. A criança apenas fez aquilo que milhões de outras fazem todos os dias: admirou um craque, recebeu um presente e se emocionou. Quem transformou um momento de felicidade em uma situação de medo foram os adultos.

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E talvez seja justamente isso o mais triste de toda essa história. O futebol, que deveria aproximar, divertir, emocionar e criar memórias, acaba sendo utilizado como justificativa para atitudes que beiram a selvageria.

Rivalidade não precisa significar ódio. Paixão não precisa significar intolerância. E defender o próprio clube jamais deveria exigir a desumanização de quem veste outra camisa, muito menos de uma criança.

Se chegamos ao ponto de uma criança precisar de escolta policial para sair de um estádio porque ganhou a camisa de seu ídolo, talvez seja hora de admitir que o problema não está no futebol. Está em nós.

E enquanto esse tipo de comportamento continuar sendo tratado como algo normal em nome da “paixão”, estaremos apenas afastando famílias, crianças e pessoas de bem dos estádios, justamente aqueles que deveriam ser os maiores espaços de celebração do nosso futebol.

É preciso deixar isso muito claro: o Corinthians, enquanto instituição, não pode e não deve l ser responsabilizado pela atitude criminosa e repugnante de indivíduos que estavam nas arquibancadas. A responsabilidade pelos atos é de quem os praticou.

Aliás, o clube agiu corretamente ao se posicionar de forma firme contra esse tipo de comportamento. E essa distinção é fundamental: criticar e responsabilizar quem protagonizou tamanha demonstração de intolerância não significa, de maneira alguma, atribuir ao Corinthians ou à sua torcida como um todo uma conduta que pertence a uma parcela específica.

O futebol não pode ser usado como escudo para atitudes covardes, e muito menos um clube inteiro ser colocado no mesmo lugar daqueles que escolheram ultrapassar todos os limites.