Janeiro sempre foi o mês em que o futebol brasileiro respirava fundo antes de começar de verdade. Pré-temporada, time se ajeitando, torcida reencontrando o estádio sem pressa. Em 2026, isso muda de forma definitiva. Pela primeira vez desde a adoção dos pontos corridos, os campeonatos estaduais vão dividir o calendário com o início do Campeonato Brasileiro.
Os estaduais começaram logo na segunda semanada do mês e seguem até 8 de março, limitados a 11 datas. O Brasileirão, por sua vez, larga em 28 de janeiro e se estende até dezembro. Na prática, o futebol nacional entra em campo sem intervalo. Jogos do torneio nacional ocupam o meio da semana, enquanto os estaduais ficam espremidos nos fins de semana.
Esse novo desenho explica escolhas que, à primeira vista, parecem simbólicas. O Flamengo, por exemplo, optou por não disputar a Copa São Paulo de Futebol Júnior e usar o Sub-20 no início do Campeonato Carioca. O elenco principal só se reapresenta em 12 de janeiro, após a sequência que terminou com o Mundial de Clubes em dezembro de 2025.
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O estadual, que durante décadas marcou o início do ano esportivo, passa a conviver com outra lógica. Já não é mais o ponto de partida. É um torneio que começa no meio do caminho, pressionado por um calendário que não espera e por clubes que fazem contas antes de escalar seus times.
O estranhamento não está apenas no campo. Ele está na sensação de que algo mudou de lugar. O futebol brasileiro entra em 2026 com jogos, viagens, decisões e prioridades todas misturadas desde janeiro. E, no meio disso tudo, os estaduais seguem ali, tentando entender qual é o seu papel agora.
O período dourado dos estaduais

Houve um tempo em que o campeonato estadual não era um torneio de passagem. Ele organizava a temporada, moldava equipes e criava vínculos duradouros entre jogadores, clubes e torcedores. Não porque fosse romantizado, mas porque ocupava o centro do futebol brasileiro.
Durante décadas, a repetição foi parte do processo. Os clássicos se enfrentavam várias vezes ao longo do ano. Os times se conheciam, se estudavam, se odiavam e se respeitavam dentro de um mesmo território. Esse convívio constante dava corpo às equipes e ritmo aos jogadores.
O Vasco do chamado Expresso da Vitória é um exemplo desse contexto. A base que dominou o Campeonato Carioca nos anos 40 e 50 foi também a espinha dorsal da Seleção Brasileira de 1950. Em São Paulo, o Campeonato Paulista dos anos 1960 foi marcado pelo domínio do Santos, liderado por Pelé.
A equipe da Vila Belmiro concentrou a maior parte dos títulos da década e transformou o estadual em palco recorrente de um dos períodos mais vitoriosos da história do futebol brasileiro. Já nos anos 1970, o cenário mudou. O campeonato passou a apresentar maior equilíbrio, com títulos distribuídos entre os grandes clubes do estado. Nesse contexto, o Palmeiras consolidou um de seus ciclos mais fortes, enquanto o estadual seguia como espaço central de disputa, repetição de confrontos e construção de rivalidades.
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Em Minas Gerais, jogadores como Tostão e Dirceu Lopes dividiram o campo em diversas edições do Campeonato Mineiro, conquistado cinco títulos seguidos pelo Cruzeiro, formando uma dupla matadora, enquanto no Sul, o Internacional construiu, no Campeonato Gaúcho, a base do time que se tornaria tricampeão brasileiro nos anos 70. O octacampeonato estadual entre 1969 e 1976.
No Nordeste, o Campeonato Pernambucano também ocupava posição central. O Santa Cruz, especialmente nas décadas de 1960 e 1970, tinha no estadual sua principal vitrine esportiva e financeira. O Arruda recebia grandes públicos, e jogadores como Ramon, artilheiro do futebol brasileiro em 1973, construíram reconhecimento atuando em um calendário fortemente marcado pelas competições regionais.



Naquele período, o estadual concentrava jogos, rivalidades e expectativas. A estrutura do calendário permitia que os clubes se organizassem em torno dessas competições, algo que ajuda a entender por que os campeonatos estaduais ocuparam, por tanto tempo, um lugar central no futebol brasileiro.
Essa lógica não existe mais da mesma forma. Mas entender como ela funcionava ajuda a explicar por que o estadual ocupou, por tanto tempo, um lugar central no futebol do país.
Um torneio com realidades diferentes para grandes, médios e pequenos
A discussão sobre o peso dos campeonatos estaduais atravessa anos e está ligada, sobretudo, a um calendário longo e desgastante, que acumula competições nacionais, continentais e datas internacionais. O estadual entra nesse cenário como mais uma peça de um calendário já saturado para os principais clubes do país.
Em 2026, essa tensão aparece mais cedo. Com o ano esportivo começando carregado desde janeiro, as diferenças entre grandes, médios e pequenos ficam mais visíveis. Para clubes com elencos amplos e compromissos em várias frentes, o estadual passa a ser administrado dentro de uma lógica de preservação física e planejamento. O torneio não desaparece, mas ocupa um espaço secundário diante de prioridades nacionais e internacionais.
Para clubes médios e pequenos, a lógica é outra. Em muitos estados, o estadual segue sendo o principal eixo da temporada. É onde há calendário regular, rivalidade próxima, visibilidade e alguma previsibilidade financeira. Em Belém, o clássico Re-Pa continua concentrando atenção e público.
Essas realidades sempre coexistiram, mas o calendário atual reduz o espaço para acomodá-las sem atrito. O desgaste não vem do estadual isoladamente, mas da tentativa de encaixá-lo em um modelo que trata de forma semelhante clubes com estruturas, objetivos e necessidades muito diferentes.
O que 2026 explicita é esse descompasso. Um mesmo torneio passa a ser disputado por quem joga pensando em gestão de elenco e por quem joga pensando em sobrevivência esportiva. O estadual permanece, mas cada vez mais pressionado por um calendário que não distingue contextos e impõe o mesmo ritmo a realidades que nunca foram iguais.

