O São Paulo teve mais uma noite de frustração no Morumbis. Na terça-feira (15), o Tricolor empatou por 1 a 1 com o Boca Juniors, mas o resultado não foi suficiente para reverter a derrota por 1 a 0 sofrida na Bombonera, na partida de ida. Com o agregado de 2 a 1 para os argentinos, o time de Dorival Júnior está fora da Copa Sul-Americana nas quartas de final e passa a ter apenas o Campeonato Brasileiro para disputar no restante da temporada.
Como foi o jogo
O primeiro tempo foi truncado, com muitos erros de passe dos dois lados. O Boca controlou boa parte das ações do meio campo, dificultando a saída de bola são-paulina, enquanto o Tricolor levava perigo apenas poucas jogadas individuais de Artur e Luciano. A melhor chance do primeiro tempo foi do Tricolor: Gustavo Santana acertou a trave de cabeça aos 37′.
Na volta do intervalo, o São Paulo cresceu um pouco, com Luciano mais participativo, mas foi o Boca quem abriu o placar: aos 14′, Flores tabelou pela direita e achou Lozano na área, que bateu forte para marcar. O gol escancarou as fragilidades defensivas de uma equipe que já vinha sofrendo para fechar espaços. O Tricolor ainda buscou a reação e chegou ao empate nos minutos finais, com Domingos Duarte completando de cabeça uma cobrança de falta de Artur, mas não teve tempo de construir o segundo gol que levaria a decisão para os pênaltis.
Vale registrar, no entanto, que o jogo teve outros fatores além do futebol. Depois de abrir o placar, o Boca Juniors passou a administrar o tempo de forma descarada, com quedas frequentes, atendimentos demorados e reposições arrastadas, um anti-jogo clássico do futebol argentino, que tirou ritmo da partida justamente quando o São Paulo mais precisava de velocidade.
O episódio mais polêmico, porém, veio aos 22′ do segundo tempo: após bate-rebate na área, Luciano recebeu e serviu Ryan Francisco, que empurrou para as redes. O gol daria sobrevida ao Tricolor, mas o árbitro uruguaio Gustavo Tejera marcou impedimento, confirmado pelo VAR sob o argumento de que o ombro de Luciano estava à frente do último defensor. A decisão revoltou o Morumbis lotado e rendeu até cartão amarelo a Dorival Júnior e a sensação, para o torcedor tricolor, de que a eliminação passou também pela arbitragem.
Análise técnica: dois times em momentos opostos
Do lado argentino, o Boca Juniors mostrou eficiência e controle de jogo, apoiado principalmente na experiência de Paredes no meio-campo e na velocidade de Lozano e Flores nos espaços. Mesmo sem um bom futebol, a equipe soube administrar o placar da partida de ida.
Já o São Paulo, repetiu um problema que vem se tornando crônico ao longo da temporada: dificuldade de criação contra times organizados defensivamente e fragilidade em lances de bola parada e transições rápidas. A equipe de Dorival Júnior teve volume ofensivo insuficiente no primeiro tempo, justamente quando mais precisava de gols, já que jogava a necessidade de reverter o placar agregado. O time só melhorou de postura quando o resultado já estava desfavorável, um padrão que se repete em jogos decisivos do Tricolor neste ano.
A fala de Crespo que pesou contra ele
A eliminação reacende um debate que já dura meses no clube: o acerto (ou erro) da demissão de Hernán Crespo, ocorrida em março, ainda no início da temporada. Um dos estopins da saída do treinador argentino foi uma declaração dada após a derrota para a Portuguesa, ainda no Campeonato Paulista, quando Crespo disse que a meta realista para o ano seria “o Brasileirão, 45 pontos” número associado à margem de segurança contra o rebaixamento.
A fala foi interpretada pela diretoria como alarmista e incompatível com as expectativas do clube, que considerava o elenco forte o suficiente para brigar por objetivos maiores. Somada a outros atritos internos como a folga dada ao elenco após a eliminação no Paulistão diante do Palmeiras, a declaração acabou sendo um dos fatores que selaram a saída de Crespo dias depois.
Meses mais tarde, o discurso ganhou nova força: recentemente, o lateral Rafinha admitiu publicamente que o clube pode ter errado ao demitir Crespo naquele momento, reacendendo as críticas à diretoria diante das sucessivas eliminações e da luta do time justamente pelos tais “45 pontos” que o argentino havia previsto.
Brasileirão: a única saída para o ano não ser um fracasso completo
Com a queda diante do Boca, o São Paulo está eliminado de todas as competições de mata-mata da temporada: caiu nas semifinais do Paulistão, na quinta fase da Copa do Brasil e agora nas quartas da Sul-Americana. Resta só o Campeonato Brasileiro e é nele que o clube precisa concentrar toda a energia se quiser evitar que 2026 vire um ano de saldo negativo.
Depois da derrota para o Palmeiras na 27ª rodada, o Tricolor ocupa a 11ª colocação, com 33 pontos em 27 jogos (9 vitórias, 6 empates, 11 derrotas), oito pontos à frente do Vasco da Gama, primeiro time dentro do Z-4. É uma distância que traz algum alívio, mas está longe de ser suficiente para relaxar: o desempenho instável do time ao longo do ano e o fato de o clube já ter trocado de treinador três vezes na temporada (Crespo, Roger Machado e agora Dorival Júnior), mostra que a vaga seguirá ameaçada até a distância se consolidar.

O que o São Paulo precisa fazer com urgência
Para evitar qualquer risco, o Tricolor precisa, antes de tudo, corrigir o desempenho como visitante, ponto em que mais deixou pontos pelo caminho na temporada. Jogos contra adversários da parte de baixo da tabela, fora de casa, passam a valer como finais antecipadas, e é justamente nesse tipo de confronto que o time costumou tropeçar ao longo do ano.
Em campo, a prioridade é resolver as fragilidades defensivas que ficaram evidentes diante do Boca e se repetiram em outros jogos decisivos: falhas de posicionamento entre os zagueiros, dificuldade em acompanhar transições rápidas e vulnerabilidade em bola parada. Sem corrigir isso, mesmo um ataque mais produtivo dificilmente sustentará uma sequência positiva.
Fora de campo, a diretoria tem uma responsabilidade igualmente decisiva: dar tempo e estrutura a Dorival Júnior. O clube já trocou de treinador três vezes em 2026, e cada mudança significou recomeçar a montagem tática do zero. Uma quarta troca a essa altura do campeonato tende a agravar o problema em vez de resolvê-lo.
A eliminação também traz um efeito colateral que pode ser aproveitado. Sem mais competições de mata-mata, o São Paulo passa a ter semanas livres para treinar, recuperar fisicamente o elenco e preparar cada partida com mais calma, vantagem que boa parte dos concorrentes diretos na tabela não terá.
Por fim, o mais urgente é abrir uma distância real da zona de rebaixamento nas próximas rodadas, começando pelo duelo com o Internacional no Morumbis. Somar pontos agora, enquanto a margem de oito pontos para o Z-4 ainda existe, é o que evita que o Tricolor chegue às rodadas finais dependendo de combinações de resultados e revivendo a tensão de temporadas recentes.
Sem mais nada a disputar além da Série A, o São Paulo entra em uma corrida contra o tempo: transformar o que sobrou da temporada em algo que, ao menos, evite o pior cenário possível para a torcida e para um clube do tamanho do Tricolor.


