O empresário Gabriel de Alba, dono da GDA Luma, desembarcou no Rio de Janeiro na última terça-feira (18) para conhecer as instalações, assinar o contrato final de compra da SAF do Botafogo e dar uma coletiva de imprensa como novo dono da SAF. O empresário, inclusive, já teve a palavra final na decisão de demitir o técnico Franclim Carvalho, em meio a guerra jurídica com os antigos sócios o Botafogo utilizou de cláusulas do antigo contrato para se livrar do embrolio com a Eagle Football causado pelo ex-dono John Textor.
Quem é GDA Luma?
A empresa americana liderada pelo mexicano Gabriel de Alba é especializada em recuperar marcas em estado pré-falimentar, atuando no modelo conhecido no mercado como “fundos abutres”. O objetivo é assumir essas marcas por um valor mais baixo, recuperá-las financeiramente e, no futuro, vendê-las por um valor bem maior. O case de maior sucesso da empresa foi a recuperação do famoso Cirque du Soleil, na França. No entanto, na área do futebol, será a primeira atuação da empresa.
Para entender um pouco como a SAF do Botafogo chegou a esse status de pré-falimentar, preparamos uma linha do tempo desde o começo da era SAF, em 2022, até a venda para a GDA Luma, agora em 2026.
John Textor: da salvação à destruição
2022 — A chegada de John Textor
Janeiro de 2022 — Textor entra no radar do Botafogo
Depois de conversas iniciadas no fim de 2021, John Textor avançou para comprar o controle da SAF do Botafogo. O projeto previa que o empresário americano assumisse 90% das ações da futura SAF.
13 de janeiro de 2022 — Aprovação pelo Conselho Deliberativo
O Conselho Deliberativo aprovou, com 97% dos votos, a venda de 90% da SAF para Textor.
2022 — Nasce a estrutura que posteriormente daria origem à Eagle Football
Textor passa a organizar seus investimentos no futebol por meio de uma estrutura empresarial que posteriormente seria conhecida como Eagle Football, reunindo Botafogo, Crystal Palace e RWDM Molenbeek.
O Botafogo deixa de ser administrado exclusivamente pelo modelo associativo e passa a funcionar dentro do modelo SAF.
24 de Junho 2022 – John Textor usa o Botafogo como garantia em empréstimo para comprar o Lyon
Para concretizar a aquisição do Lyon, John Textor precisou recorrer a financiamento externo. A Ares Management concedeu um empréstimo de aproximadamente € 425 milhões, usado principalmente para viabilizar a compra do clube francês pela Eagle Football. John Textor deu como garantia desse empréstimo as ações dos seus clubes, incluindo o Botafogo. A operação seria decisiva para a expansão do projeto de Textor na Europa, mas também criaria uma pesada dívida que posteriormente se tornaria um dos principais problemas financeiros da Eagle.
O problema é que esse empréstimo não foi pago por Textor e não ficou parado no tempo. Segundo informações posteriores, a dívida acumulou juros muito elevados: a Eagle chegou a dever à Ares cerca de US$ 300 milhões em dívida com juros de 16% ao ano, além de outros US$ 135 milhões a 18% e uma linha de crédito de US$ 27 milhões a 22% ao ano.
2023 e 2024 — A era de ouro de Textor
O Botafogo, que havia disputado a Série B em 2021, passa a receber investimentos e contratações de maior porte. Em 2024, o projeto chega ao auge. O clube conquista o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores da América. A conquista continental, especialmente, consolida a imagem de Textor como responsável por uma das maiores transformações recentes do futebol brasileiro.
Naquele momento, a relação entre Botafogo e Textor era completamente diferente daquela que existiria apenas dois anos depois.
A corda bamba de Textor
2025 — Começam os problemas dentro da Eagle Football
Janeiro de 2025 — John Textor envia receitas do Botafogo para o Lyon
John Textor enviou toda a receita recebida pelo Botafogo com os títulos de 2024 e as vendas de jogadores no começo de 2025, como a de Luiz Henrique, para tentar salvar o Lyon de um rebaixamento administrativo na Ligue 1 por conta das dívidas do clube francês. A medida causou problemas até para o Botafogo pagar as premiações aos jogadores pelos títulos do ano anterior.
Depois do auge de 2024, a estrutura empresarial de Textor começa a enfrentar problemas financeiros e societários. A Eagle Football carregava dívidas relevantes e passou a enfrentar pressão de credores. Um dos pontos importantes foi a relação de Textor com a Ares Management, principal credora da estrutura que controlava os clubes.
Ao mesmo tempo, começaram a aparecer problemas financeiros no próprio Botafogo, especialmente relacionados a pagamentos de contratações.
Um dos casos mais importantes foi o de Thiago Almada. O Botafogo havia sido condenado a pagar uma dívida ao Atlanta United de US$ 25 milhões, referente à contratação do argentino, situação que posteriormente contribuiu para um transfer ban da FIFA.John Textor enviou toda a receita recebida pelo Botafogo com os títulos de 2024 e as vendas de jogadores no começo de 2025, como a de Luiz Henrique, para tentar salvar o Lyon de um rebaixamento administrativo na Ligue 1 por conta das dívidas do clube francês. A medida causou problemas até para o Botafogo pagar as premiações aos jogadores pelos títulos do ano anterior.
Depois do auge de 2024, a estrutura empresarial de Textor começa a enfrentar problemas financeiros e societários. A Eagle Football carregava dívidas relevantes e passou a enfrentar pressão de credores. Um dos pontos importantes foi a relação de Textor com a Ares Management, principal credora da estrutura que controlava os clubes.
Ao mesmo tempo, começaram a aparecer problemas financeiros no próprio Botafogo, especialmente relacionados a pagamentos de contratações.
Um dos casos mais importantes foi o de Thiago Almada. O Botafogo havia sido condenado a pagar uma dívida ao Atlanta United de US$ 25 milhões, referente à contratação do argentino, situação que posteriormente contribuiu para um transfer ban da FIFA.
Julho de 2025 — O primeiro grande sinal de ruptura
Em julho de 2025, a situação dentro da Eagle Football se agravou. Acionistas da Eagle chegaram a tentar retirar Textor do comando dos clubes da estrutura, inclusive do Botafogo.
Textor, entretanto, continuava defendendo seu projeto e buscava alternativas para colocar dinheiro no Glorioso. Um dos planos chegou a envolver um empréstimo de € 100 milhões para o clube, mas a operação acabou sendo bloqueada pela Ares.
Esse episódio é fundamental para entender o que aconteceria depois: Textor ainda queria comandar o Botafogo, mas já não tinha liberdade financeira dentro da estrutura da Eagle.
Final de 2025 — A crise financeira se aprofunda
Ao longo do segundo semestre de 2025, a situação financeira da Eagle se tornou cada vez mais complicada. Além das dívidas relacionadas aos clubes, havia disputas com investidores e credores.
Um dos processos envolvia a Iconic Sports Management, que cobrava cerca de US$ 97 milhões de Textor relacionados à compra de participação na Eagle. Enquanto isso, o Botafogo começava 2026 enfrentando problemas financeiros e esportivos.
GDA Luma: de parceira de Textor a dona do Botafogo
Janeiro de 2026 — Botafogo entra em situação delicada
Em janeiro, a crise já era pública. O Botafogo acumulava dívidas com jogadores, clubes e outros credores, enquanto a Eagle enfrentava seus próprios problemas financeiros.
Textor ainda prometia novos aportes ao Botafogo, mas o dinheiro não chegava na velocidade necessária. O grande problema era que Textor não controlava mais livremente os recursos da estrutura Eagle. A Ares, como principal credora, passou a ter influência cada vez maior sobre o futuro da holding.
Fevereiro de 2026 — Entra a GDA Luma
Aqui aparece um personagem que posteriormente se tornaria fundamental: Gabriel de Alba, empresário mexicano e fundador da GDA Luma Capital. Em fevereiro, GDA Luma e Hutton Capital emprestaram US$ 25 milhões ao Botafogo.
O dinheiro foi utilizado para resolver o problema relacionado ao transfer ban da FIFA causado pela dívida com o Atlanta United pela contratação de Thiago Almada.
O empréstimo tinha uma característica extremamente importante: existia uma previsão de conversão da dívida em participação societária na SAF.
Ou seja, a GDA Luma deixou de ser apenas uma credora e passou a ter potencial caminho para se tornar acionista do Botafogo.
Março de 2026 — A Eagle perde o controle operacional
Em março, a crise da Eagle chega a um novo estágio. A Ares Management, utilizando mecanismos previstos na legislação inglesa, conseguiu suspender os poderes de John Textor como diretor da Eagle Bidco. A empresa Cork Gully foi nomeada administradora da estrutura.
Isso muda completamente o cenário. Até então, Textor era o homem que comandava o projeto. A partir daí, uma administradora independente passa a controlar a estrutura da Eagle que detinha os ativos dos clubes.
Abril de 2026 — Textor é afastado do comando do Botafogo
Este é o momento decisivo. O Tribunal Arbitral da FGV determina o afastamento de John Textor do comando da SAF do Botafogo. A justificativa apresentada foi o entendimento de que as ações do americano, como as diversas negociações suspeitas com o Nottingham Forest, da Inglaterra, clube cujo dono, Evangelos Marinakis, é abertamente próximo de Textor e inclusive já emprestou dinheiro ao americano em outras oportunidades, poderiam causar danos aos acionistas e à comunidade do Botafogo.
Textor deixa de comandar efetivamente o futebol alvinegro. O clube passa a procurar uma solução para a crise. E então acontece algo ainda mais importante: em 14 de abril de 2026, a Cork Gully coloca oficialmente a SAF do Botafogo à venda por meio de anúncio publicado no Financial Times. Na prática, começa o processo para encontrar um novo controlador.
Abril de 2026 — Textor tenta permanecer
Apesar do afastamento, Textor não aceita simplesmente deixar o Botafogo. Ele apresenta uma proposta para colocar US$ 25 milhões no clube. O empresário argumentava que o dinheiro seria um investimento de capital próprio e permitiria fortalecer financeiramente a SAF.
Mas havia um problema: o clube associativo precisava aprovar a emissão de novas ações e, com a falta de clareza sobre a origem desse dinheiro, o clube se opôs à proposta. A relação entre Textor e o Botafogo associativo se deteriora ainda mais.
Maio de 2026 — Botafogo e Eagle tentam encerrar a guerra
Depois de meses de disputas, Botafogo e Eagle chegam a um acordo para suspender temporariamente os processos judiciais. O chamado “acordo de paz” abre caminho para que um novo investidor assuma a SAF.
Nesse momento, a GDA Luma passa a ser a principal candidata, pois foi a única proposta considerada concreta pelo clube. A Mastercoin, um fundo do Texas que apresentou uma proposta, não mostrou garantias suficientes ao clube. A outra proposta recebida foi de John Textor, juntamente com Evangelos Marinakis e Kia Joorabchian, que foi prontamente descartada pelo clube.
A proposta escolhida
Gabriel de Alba apresenta uma proposta considerada mais interessante pelo Botafogo. A GDA oferecia US$ 105 milhões pela operação, além de assumir responsabilidades financeiras da SAF.
Junho de 2026 — GDA Luma é escolhida
Em 5 de junho de 2026, é assinado o acordo vinculante entre Botafogo e GDA Luma para a futura transferência do controle da SAF.
A proposta estabelece US$ 105 milhões pelo negócio. Desse montante, estava previsto um primeiro aporte de US$ 25 milhões, aproximadamente R$ 130 milhões na cotação utilizada na época, além do perdão da dívida do empréstimo realizado pela GDA ao Botafogo, de US$ 25 milhões.
Mas existe uma diferença importante: o acordo vinculante não significava que a GDA já havia assumido o Botafogo.
A Eagle/Cork Gully ainda controlava juridicamente os 90% das ações, e era necessário resolver as questões entre Eagle, Botafogo e Lyon. A controladora exigia do Botafogo o perdão da dívida do Lyon com o clube, algo que foi prontamente negado tanto pelo Botafogo quanto pela GDA Luma. O clube não abre mão dos valores a receber da equipe francesa.
Junho de 2026 — Textor contra-ataca
Enquanto o Botafogo avançava com a GDA, Textor abriu novas ações judiciais. O americano passou a alegar que continuava sendo o verdadeiro proprietário dos 90% das ações da SAF.
O argumento central era relacionado ao contrato de novembro de 2022. Segundo a defesa de Textor, ele deveria ter recebido aproximadamente R$ 150,3 milhões/US$ 24 milhões pela transferência das ações para a Eagle, pagamento que, segundo ele, nunca teria acontecido.
Portanto, Textor sustentava: se não recebeu o pagamento previsto no contrato, a transferência das ações nunca teria sido concluída. A Eagle, por outro lado, considerava-se dona dos 90%. É justamente esse conflito que tornou a venda para a GDA tão complexa.
Junho de 2026 — GDA começa a negociar diretamente com a Cork Gully
As negociações deixam de envolver apenas Botafogo e GDA. A transferência dos 90% passa a ser negociada diretamente entre GDA Luma e Cork Gully/Eagle Bidco.
O objetivo era fazer com que a GDA assumisse tanto o controle do futebol quanto o enorme passivo financeiro da SAF. Segundo o ge.globo, a dívida total do Botafogo poderia chegar próximo de R$ 3 bilhões, considerando os diferentes compromissos financeiros.
Julho de 2026 — Botafogo tenta destravar a operação
Em julho, o Botafogo utiliza um mecanismo jurídico para tentar assumir o controle das ações que estavam com a Eagle e, consequentemente, destravar a venda para a GDA.
O clube alegou que, em meados de 2025, a Eagle havia realizado um aporte de aproximadamente € 22 milhões, mas retirado o dinheiro no mesmo dia em que ele foi depositado na conta da SAF. Com isso, teria desonrado o acordo de acionistas, possibilitando ao clube acionar a chamada “cláusula de arrasto”, prevista em contrato, fazendo com que o clube se torne dono de 59% das ações da SAF e tenha caminho livre para fechar com a GDA.
Essa cláusula faz com que qualquer proposta aceita pelo Botafogo como sócio majoritário seja aceita automaticamente pela Eagle. Ao mesmo tempo, a GDA começou a colocar dinheiro no Botafogo.
Julho/agosto de 2026 — GDA começa a financiar o Botafogo
Mesmo sem ter assumido formalmente o controle da SAF, a GDA começou a participar financeiramente da recuperação do clube. De acordo com o ge.globo, em julho a empresa realizou um aporte de US$ 14,3 milhões, aproximadamente R$ 75 milhões, para ajudar o Botafogo a lidar com despesas imediatas.
Isso mostra uma mudança importante: a GDA ainda não era oficialmente a dona, mas já estava colocando dinheiro e preparando a estrutura para assumir o clube.
Agosto de 2026 — A transição chega à reta final
Gabriel de Alba já era tratado como o provável novo controlador da SAF. O próprio elenco do Botafogo já havia tido contato com informações sobre o projeto da GDA, o que motivou, por exemplo, a renovação com o capitão e ídolo do clube, Alex Telles.
18 de agosto: Gabriel de Alba desembarca no Rio de Janeiro pela primeira vez para conhecer as instalações do clube, assinar o contrato final e dar a primeira coletiva de imprensa como dono do Botafogo.
18 de agosto: com aval de Gabriel de Alba, o Botafogo opta pela demissão de Franclim Carvalho e anuncia contratações de profissionais velhos conhecidos do clube social. A primeira decisão importante do empresário à frente do Botafogo foi a demissão do técnico Franclim, que estava bastante pressionado pela torcida depois dos últimos resultados. A decisão foi apoiada pelos torcedores.
Por outro lado, as contratações de Paulo Bonamigo, Ronaldo Torres e Marcelo Salles para cargos no departamento de futebol não agradaram nem um pouco à torcida, principalmente pela ligação dos profissionais com o presidente do Botafogo Social, JP Magalhães.
A torcida teme a volta da influência do clube social no futebol do Botafogo. É esperada uma coletiva de imprensa de Gabriel de Alba nos próximos dias para que todas as dúvidas sobre o projeto da GDA Luma no Botafogo sejam sanadas. coletiva de empresa de Gabriel de Alba nos próximos dias, para que todas as dúvidas sobre o projeto da GDA Luma no Botafogo sejam sanadas.

