O Brasil terá nesta terça-feira (29) o segundo encontro com a Austrália em menos de uma semana. A partida, marcada para as 7h (de Brasília), no Suncorp Stadium, em Brisbane, que acontece depois do empate por 1 a 1 em Townsville, na última sexta-feira (25), e será o segundo compromisso da Seleção após a eliminação para a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026.
Embora os dois amistosos tenham sido programados como parte da preparação para o ciclo que termina na Copa do Mundo de 2030, o resultado do primeiro confronto chamou atenção sobre o funcionamento da equipe. O Brasil teve dificuldade para construir jogadas, passou boa parte da partida sem conseguir controlar o meio-campo e precisou de um gol de Rayan, aos 49 minutos do segundo tempo, para evitar a derrota.
Para o segundo jogo, Carlo Ancelotti indicou que fará exatamente o que havia planejado desde antes da viagem: testar jogadores diferentes. No treinamento de domingo, o técnico promoveu sete alterações e também modificou a estrutura da equipe. A tendência é que o Brasil abandone o 4-2-4 utilizado no primeiro amistoso e passe a atuar em um 4-3-3, com um homem a mais no meio-campo.
O primeiro jogo expôs um problema mais coletivo do que individual

O empate em Townsville não pode ser explicado a partir da falha de Hugo Souza no gol australiano. O goleiro sofreu o gol de Irankunda aos 22 minutos do segundo tempo, em cobrança direta de falta, mas o desempenho brasileiro já apresentava dificuldades antes daquele momento.
A Austrália teve mais posse de bola e controlou as ações durante boa parte do primeiro tempo, já o Brasil encontrou dificuldades para fazer a bola chegar aos jogadores de ataque em condições de finalizar e recorreu com frequência a lançamentos longos. A equipe terminou a partida sem criar volume suficiente para transformar a superioridade técnica esperada em domínio no campo.
A partida também mostra que a mudança feita por Ancelotti durante o jogo não resolveu completamente o problema. O treinador realizou seis substituições, mas a equipe continuou com dificuldades para criar oportunidades claras depois de sofrer o gol. O empate só veio no último lance, quando Raphinha cobrou escanteio e Rayan apareceu na área para marcar de cabeça.
O lance do gol anulado de Estêvão, no primeiro tempo, também foi uma das poucas jogadas em que o Brasil conseguiu recuperar a bola e chegar rapidamente à área adversária. O VAR identificou falta de Bruno Guimarães em Souttar na origem da jogada, e o gol acabou invalidado.
Como fazer o meio-campo participar mais do jogo e diminuir a dependência das bolas longas para os atacantes?
Três jogadores no meio e Raphinha centralizado

É justamente nesse ponto que a principal mudança de Ancelotti aparece, no treino de domingo, o treinador montou uma equipe com Danilo, Bruno Guimarães e Gabriel Bontempo no meio-campo. A formação deixa de ter dois jogadores por dentro e acrescenta uma peça para ajudar na saída de bola e na ocupação do setor.
A alteração também modifica a utilização de Raphinha. O atacante foi testado mais centralizado, como referência ofensiva, enquanto Rayan e Vinícius Júnior completariam o trio de ataque.
A escolha tem relação com a função que Raphinha vem desempenhando no Barcelona. O jogador tem atuado centralizado pelo clube espanhol e vive um momento de destaque ofensivo, com 14 gols em oito partidas, incluindo dois hat-tricks. A ideia de Ancelotti, portanto, não é simplesmente improvisar o brasileiro como centroavante, mas observar na Seleção uma função que ele já exerce em seu clube.
A formação testada foi: Pedro Morisco ou Otávio; Vanderson, Jair, Gabriel Magalhães e Mauro Júnior; Danilo, Bruno Guimarães e Gabriel Bontempo; Rayan, Raphinha e Vinícius Júnior. A definição do goleiro ainda estava aberta após o treino, com Hugo Souza, Pedro Morisco e Otávio sendo testados.
A confirmação da escalação, portanto, depende do último treinamento antes da partida. O que já está claro é a intenção de Ancelotti de aproveitar o segundo amistoso para ampliar a avaliação dos convocados. A atual lista tem nove estreantes na Seleção principal: Martinelli, Mauro Júnior, Otávio, Arthur Dias, Jair, Breno Bidon, Matheuzinho, Gabriel Bontempo e Pedro Morisco.
O que muda para o Brasil no segundo jogo

A principal expectativa não está em quem vai entrar em campo, e sim na maneira como o time vai ocupar o campo.
Com três jogadores no meio, Ancelotti ganha uma alternativa para evitar que Bruno Guimarães e Danilo fiquem responsáveis por uma área excessivamente grande. No primeiro amistoso, a equipe teve dificuldades para conectar defesa e ataque e acabou procurando os atacantes diretamente.
A mudança também pode aproximar Raphinha da área. Em vez de receber aberto e precisar percorrer muitos metros até a zona de finalização, o jogador poderá atuar mais próximo de Vinícius Júnior e Rayan. Ao mesmo tempo, essa configuração exige que os dois pontas encontrem espaço pelos lados e que o meio-campo consiga abastecer o trio ofensivo.
É uma mudança que será interessante de observar justamente porque o primeiro jogo mostrou o contrário: o Brasil tinha quatro jogadores mais adiantados, mas isso não significou necessariamente maior produção ofensiva.
A quantidade de atacantes, por si só, não resolveu o problema de criação. O desafio para Ancelotti será fazer com que a estrutura do time produza mais situações de gol.
A Austrália também mostrou que pode incomodar
O empate em Townsville não foi resultado apenas de uma atuação ruim do Brasil. A Austrália apresentou uma equipe capaz de dificultar a saída brasileira e de manter a Seleção distante da área durante determinados períodos da partida.
Irankunda foi o principal exemplo, o jovem atacante marcou o gol australiano em uma cobrança de falta e foi uma das ameaças ofensivas da equipe. O Brasil, por outro lado, só conseguiu evitar a derrota no último lance.
O segundo confronto também terá um componente diferente: será disputado em Brisbane, no Suncorp Stadium, diante de um adversário que já conhece as mudanças que Ancelotti pretende fazer. Para o treinador brasileiro, isso significa que o amistoso será também um exercício de adaptação durante o próprio ciclo de preparação.
A partida desta terça-feira será o décimo entre as seleções, nos nove anteriores, foram seis vitórias brasileiras, dois empates e uma vitória australiana, com 22 gols marcados pelo Brasil e apenas dois pela Austrália. O último encontro, entretanto, mostrou que esse retrospecto não interfere no que acontece dentro de campo.
O resultado importa, mas não é a única resposta procurada

Ancelotti tem insistido que a prioridade neste início de ciclo é formar uma equipe capaz de chegar preparada à Copa América de 2028 e à Copa do Mundo de 2030. Na entrevista antes do segundo amistoso, o treinador afirmou que pode convocar jogadores que ainda não sejam os melhores do momento se entender que eles podem representar o futuro da Seleção.
A declaração ajuda a explicar a quantidade de testes neste período. Ao mesmo tempo, ela não elimina a cobrança por desempenho. O Brasil vem de uma eliminação nas oitavas de final da Copa de 2026 e começou o novo ciclo com um empate diante de uma seleção australiana que, no papel, chega em condição diferente da brasileira.
O próprio Ancelotti reconheceu que a exigência sobre a Seleção é alta, mas rejeitou colocar o chamado “jogo bonito” como prioridade. Para o treinador, a qualidade técnica deve existir, mas o resultado está acima da obrigação de apresentar um determinado estilo de futebol.
Uma vitória não resolverá os problemas observados na primeira partida, assim como outro empate não definirá o que será o Brasil de Ancelotti até 2030. O que pode ser observado é se as alterações produzem uma equipe mais equilibrada, capaz de controlar melhor o meio-campo e de criar sem depender exclusivamente de bolas longas ou de jogadas individuais.
O Brasil terá três dias de intervalo entre os dois confrontos. Nesse período, Ancelotti optou por mexer profundamente na formação, em vez de apenas repetir a equipe que terminou a primeira partida. O duelo em Brisbane, portanto, servirá como uma comparação direta entre duas ideias utilizadas pelo treinador contra o mesmo adversário.

