Crônica: No embalo de 15 mil vozes, o Galo ruge alto e deixa o ASA à beira do abismo na final do Alagoano

CRB domina, vence o ASA por 3 a 0 no Rei Pelé e abre vantagem decisiva na final do Alagoano

Há tardes em que o futebol deixa de ser jogo e vira destino. O sábado foi assim no Estádio Rei Pelé. Mais de 15 mil vozes pulsavam antes mesmo de a bola rolar, como se o concreto do estádio respirasse junto com o torcedor. Era final. Era nervo exposto. Era o primeiro capítulo da decisão do Campeonato Alagoano.

De um lado, o CRB, empurrado por um mar vermelho e branco. Do outro, o ASA, invicto, orgulhoso, acostumado a não se curvar.

Quando Raphael Claus soprou o apito, a tensão já ocupava cada centímetro do gramado. O ASA começou como quem tenta impor respeito fora de casa, avançando linhas, marcando presença. Mas final não se ganha só com coragem, exige sangue frio. E o CRB tinha.

Aos poucos, o Galo tomou a bola como quem toma as rédeas da própria história. O campo foi ficando inclinado, não por acaso, mas por insistência. Dadá Belmonte flutuava pelas pontas, Lucas Lovat testava a defesa, o estádio crescia a cada aproximação. Aos 17, o corte no supercílio de Bressan deixou o gramado manchado de vermelho, símbolo involuntário do que estava por vir.

Então, aos 27 minutos, o momento que muda uma final. Hereda recebeu livre na área. Livre demais para um jogo desse tamanho. Dominou com calma de veterano e cruzou rasteiro, venenoso. No coração da zaga, Mikael apareceu como quem entende o tempo da bola. Canhota firme, no canto. Rede balançando. Explosão. O grito que sacudiu o Rei Pelé não foi apenas comemoração, foi desabafo, foi aviso.

O 1 a 0 não satisfez o Galo. Ao contrário, inflamou. Dadá acertou a trave num lance que pareceu replay de sonho interrompido. Cris virou personagem constante, evitando que a vantagem se tornasse abismo ainda no primeiro tempo. O ASA, atordoado, tentava respirar. Sammuel até arriscou, mas Matheus Albino era espectador privilegiado.

Na volta do intervalo, a decisão ganhou contornos dramáticos. Douglas Baggio chamou o jogo para si. Cortou para dentro, bateu colocado, exigiu defesa difícil. No lance seguinte, Pedro Castro sentiu a carga dentro da área. Pênalti. O estádio prendeu o ar. Enquanto o VAR revisava, o banco do fantasma explodiu. Léo Bahia invadiu o campo, indignado, e viu o vermelho antes mesmo de a cobrança acontecer. A final queimava.

Baggio caminhou até a bola como quem carrega o peso de uma cidade. Bateu firme. Cris acertou o canto, mas não o suficiente. 2 a 0. O grito virou terremoto.

E ainda faltava o golpe final. Aos 20, cruzamento pela direita, cabeçada de Dadá, rebote espalmado. A bola ficou viva por um segundo, tempo suficiente para Mikael, outra vez ele, surgir livre e empurrar para o gol. O terceiro. O segundo dele. O lance que transformou esperança em vantagem concreta.

O ASA ainda tentou reagir, na raça, na bola parada. Aos 41, Allef finalizou no canto e Matheus Albino voou como quem defende não só um chute, mas um símbolo. A defesa manteve o zero. Em final, isso também é gol.

Quando o apito ecoou aos 49, o placar marcava 3 a 0. Mas o que estava escrito era mais profundo: o CRB não apenas venceu. Impôs-se. Dominou emocionalmente, tecnicamente, psicologicamente.

Agora a decisão viaja para Arapiraca. O ASA terá seu povo, seu campo e a missão quase épica de fazer três para levar aos pênaltis ou quatro para ser campeão no tempo normal. Missão dura. Porque finais também são feitas de cicatrizes, e o Galo deixou marcas.

No Rei Pelé, naquela tarde quente, o futebol foi mais que resultado. Foi afirmação de força. Foi declaração de quem quer taça. E quem viu sabe: há vitórias que parecem título começando a tomar forma.