Manchester City e a final histórica: o dia em que Bert Trautmann jogou com o pescoço quebrado

Na decisão da FA Cup de 1956, o goleiro do Manchester City sofreu uma grave lesão, permaneceu em campo sem substituições e ajudou o clube a conquistar um título eterno

Foto: Manchester City

Era 5 de maio de 1956. Wembley estava lotado, mais de 100 mil pessoas espremidas nas arquibancadas, respirando futebol em sua forma mais crua. A final da FA Cup colocava frente a frente o poderoso Manchester City e o aguerrido Birmingham City. Em campo, dois estilos, duas histórias e um homem prestes a entrar para a eternidade do futebol inglês: Bert Trautmann.

Trautmann não era um goleiro comum. Alemão, ex-paraquedista do exército nazista na Segunda Guerra Mundial, ele havia sido feito prisioneiro pelos britânicos e decidido ficar na Inglaterra após o conflito. Sua contratação pelo Manchester City causou revolta entre torcedores no início, mas com o tempo, defesas espetaculares e um profissionalismo irrepreensível transformaram desconfiança em admiração. Aquela final seria a consagração definitiva.

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O jogo já caminhava para o fim quando o momento que mudaria tudo aconteceu. Aos 75 minutos, com o City vencendo por 3 a 1, o atacante do Birmingham, Peter Murphy, partiu em velocidade em direção à área. Trautmann saiu do gol sem hesitar. O choque foi violento. O joelho de Murphy acertou em cheio o pescoço do goleiro, que caiu imediatamente no gramado, imóvel, completamente desacordado.

Foto: Manchester City

O silêncio tomou conta de Wembley. Médicos correram, companheiros cercaram o corpo estendido. Não havia substituições naquela época. Se Trautmann não voltasse, o Manchester City teria de terminar a decisão com um jogador de linha improvisado no gol. Após alguns minutos de atendimento rudimentar, nada parecido com os protocolos médicos atuais, ele recobrou a consciência.

Tonto, com dores intensas e visão embaçada, Bert insistiu: “Eu fico.” Contra recomendações, voltou para debaixo das traves. Cada movimento era um desafio. Cada bola levantada na área, um risco. Mesmo assim, ele permaneceu firme. Fez defesas simples, organizou a zaga, resistiu aos últimos ataques do Birmingham.

Quando o apito final soou, Trautmann havia ajudado o Manchester City a conquistar a FA Cup, e se tornado um símbolo de coragem diante de mais de 100 mil testemunhas.

A imagem que correu o mundo foi a dele recebendo a medalha com o pescoço rígido, visivelmente inclinado, mas sorrindo. Parecia apenas mais uma dor de guerra.

Dias depois, já em casa, a dor persistia. “Um incômodo no pescoço”, pensou. Ao procurar um médico, veio o choque: ele havia jogado os 15 minutos finais da decisão com o pescoço quebrado. Radiografias revelaram cinco vértebras deslocadas, sendo que duas estavam perigosamente próximas de perfurar a medula espinhal. Um movimento em falso poderia tê-lo deixado tetraplégico, ou pior.

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O diagnóstico foi claro: Trautmann só estava vivo por milímetros.A recuperação levou meses, e sua carreira poderia ter terminado ali. Mas não terminou. Ele voltou aos gramados, continuou defendendo o Manchester City e, naquele mesmo ano, foi eleito Jogador do Ano da Football Writers’ Association, feito raríssimo para um goleiro, ainda mais um estrangeiro na Inglaterra dos anos 1950.

A final da FA Cup de 1956 não entrou para a história apenas pelo título do Manchester City. Entrou como o dia em que um goleiro desafiou a dor, a lógica e o próprio corpo, transformando sofrimento em lenda. Bert Trautmann não venceu apenas uma final. Ele venceu o tempo e eternizou seu nome como um dos maiores símbolos de bravura do futebol mundial.