O Flamengo está fora da Libertadores. Na noite desta quinta-feira (22), diante de 72.492 torcedores no Maracanã, o time de Leonardo Jardim empatou sem gols com o Estudiantes, repetiu o placar do jogo de ida da semifinal e perdeu por 3 a 2 na disputa de pênaltis. O goleiro uruguaio Fernando Muslera defendeu as cobranças de Jorginho, Lucas Paquetá e Bruno Henrique, e apenas Arrascaeta e Léo Pereira converteram para os cariocas. Os argentinos chegam à primeira final desde 2009 e enfrentarão o Palmeiras no dia 28 de novembro, no Estádio Centenário, em Montevidéu.
A postura: favoritismo e falta de urgência
O que mais pesou na queda, porém, não foi a loteria dos pênaltis, e sim o que veio antes dela. A impressão que fica é a de um Flamengo que tratou a semifinal como compromisso a cumprir, e não como confronto a conquistar. O time chegava como atual campeão, com campanha dominante na fase de grupos e sem derrotas na competição, e ainda decidiria a vaga em casa, um cenário que costuma alimentar a ideia de que a classificação virá no embalo. Não veio. Em La Plata, o Flamengo passou os 90 minutos sem finalizar no gol e foi dominado em posse e pressão, e no Maracanã voltou a entrar em campo sem a urgência que uma vaga em final de Libertadores exige. Foi um time que pareceu esperar que o adversário se rendesse ao peso da camisa, quando o adversário, na verdade, tinha plano, intensidade e um goleiro inspirado.
Análise tática
Taticamente,o jogo foi um retrato de um time sem plano B. Na ida, o Estudiantes pressionou a saída de bola do Flamengo, travou o meio-campo e deixou o time de Jardim sem criatividade. Carrascal, Bruno Henrique e Samuel Lino, peças que costumam desequilibrar, não apareceram, e as entradas de Plata, Pedro e Joaquín Freitas não alteraram a dinâmica. Léo Pereira ainda salvou uma chance claríssima quase em cima da linha, e o empate sem gols saiu mais da resistência rubro-negra do que de um bom jogo.
Na volta, o enredo mudou de lugar, mas não de roteiro. O Flamengo teve 65% da posse no primeiro tempo, porém sem criar chance clara, e Jardim manteve o time no intervalo. A expulsão de Baltasar Rodríguez, aos cinco minutos da segunda etapa, por segurar um contra-ataque de Samuel Lino, entregou ao Flamengo o cenário ideal: um jogador a mais e cerca de 40 minutos pela frente. Mesmo assim, o time insistiu em cruzamentos, quase sempre rebatidos pela zaga argentina, e pouco combinou jogadas por dentro. Jardim lançou Arrascaeta, Bruno Henrique e companhia, sem sucesso. A única chance mais perigosa foi uma finalização de Plata, aos 36 minutos, defendida com brilho por Muslera, que quase não foi exigido durante a partida. Faltaram velocidade na troca de passes e, sobretudo, uma ideia diferente quando a primeira não funcionou.
O quinto título e o isolamento entre os brasileiros
A eliminação custa mais do que uma vaga em final. O Flamengo chegou a 2026 como o clube brasileiro mais vitorioso da história da Libertadores, com quatro títulos (1981, 2019, 2022 e 2025), à frente de Palmeiras, Santos, Grêmio e São Paulo, que têm três cada. Um quinto troféu ampliaria para dois a vantagem sobre qualquer rival nacional. Seria ainda o bicampeonato seguido. Ao ficar pelo caminho, o Flamengo passa a depender de um tropeço alheio para manter o posto isolado: se o Palmeiras vencer o Estudiantes em Montevidéu, chega ao quarto título e iguala o rival no topo do país; se o Estudiantes vencer, chega ao quinto e a Argentina deixa para trás o Brasil, que somavam 25 conquistas cada após a final de 2025.
A final perdida contra o Palmeiras
Há ainda o peso do que deixou de acontecer. Com a vitória do Palmeiras sobre o Fluminense nos pênaltis, o Flamengo teria a chance de reeditar a final de 2025, disputada em Lima e decidida por 1 a 0, com gol de Danilo, a favor do time rubro-negro. Uma nova decisão entre os dois, no Centenário, seria também um acerto de contas com a história, já que foi em Montevidéu que o Palmeiras derrotou o Flamengo na final de 2021. Em vez disso, o Flamengo assiste de fora a uma decisão em que o rival paulista, finalista também em 2025, tem a chance de chegar ao quarto título e voltar a empatar com o clube carioca no topo da lista brasileira.
Foco no Brasileirão
Agora, o Flamengo precisa transformar a dor em foco no Campeonato Brasileiro, único caminho para evitar que 2026 entre para a lista dos anos para esquecer. A temporada já teve a derrota na Recopa para o Lanús, a perda da Supercopa para o Corinthians, a eliminação para o Vitória na Copa do Brasil, em maio, e agora a queda na semifinal da Libertadores; o título carioca, o 40º do clube, é o único troféu até aqui. A boa notícia é que a equipe lidera o Brasileirão com 67 pontos após 31 rodadas, um a mais que o Palmeiras, depois de assumir a ponta apenas na 26ª rodada, quando o rival chegou a abrir nove pontos de vantagem. O compromisso seguinte é contra o Atlético-MG, na segunda-feira (26), no Maracanã, e o confronto direto com o Palmeiras será na 36ª rodada, com apenas três jogos restantes. Sem a Libertadores no calendário, o título nacional passou a ser a principal forma de transformar a frustração em temporada vencedora.
As trocas de técnico
O ano também foi de troca de comando. Filipe Luís, dono de cinco títulos no clube, entre eles a Libertadores e o Brasileirão de 2025, deixou o cargo em 3 de março, horas depois de uma goleada por 8 a 0 sobre o Madureira, pressionado pelas derrotas na Supercopa e na Recopa e por um início de ano irregular. Leonardo Jardim assumiu no dia seguinte, conquistou o Carioca e levou o time à semifinal continental, mas convive com a pressão por resultados em um clube acostumado a taças. O movimento do Flamengo não é isolado em um campeonato que já contabilizava 19 técnicos demitidos até a 29ª rodada, mas a instabilidade pesa quando a régua do clube é a Libertadores. Agora, resta saber se a troca feita em março será lembrada como a decisão que encaminhou um novo título brasileiro ou como o primeiro capítulo de um ano que escapou pelas mãos.

