Em outubro de 2025, a Associação Atlética Ponte Preta vivia o ápice de sua centenária trajetória. Ao erguer o troféu do Campeonato Brasileiro da Série C, o clube de Campinas não apenas garantia o retorno à divisão de acesso, mas lavava a alma de sua torcida com um título nacional inédito. Cerca de 11 meses depois, o cenário de festa deu lugar a uma grave crise administrativa, financeira e esportiva no Estádio Moisés Lucarelli.
Hoje, a Ponte Preta respira por aparelhos. Afundada em uma crise que envolve greve geral de jogadores, salários atrasados há mais de seis meses, punições na FIFA (transfer ban) e o iminente fantasma de um novo rebaixamento, a Macaca trava uma das maiores batalhas de sua história — desta vez, para não desaparecer.
O rombo de R$ 320 milhões e a greve no Majestoso
O estopim da crise atual está nos cofres. Uma auditoria recente revelou que a dívida consolidada da Ponte Preta atingiu a alarmante marca de R$ 320 milhões. O grande vilão é o déficit operacional crônico: o clube gasta mensalmente cerca de R$ 4 milhões, mas arrecada apenas R$ 1,2 milhão.
O resultado dessa conta que não fecha bateu diretamente no bolso de quem trabalha. Com salários e direitos de imagem atrasados há cerca de seis meses, o elenco profissional tomou uma medida drástica nesta temporada: entrou em greve geral e suspendeu os treinamentos.
Diante do caos financeiro e das promessas não cumpridas pela diretoria comandada por Marco Antônio Eberlin, a debandada foi inevitável. Mais de 15 jogadores rescindiram seus contratos ou abandonaram o clube. O ápice do drama ocorreu no último fim de semana, quando a equipe precisou escalar às pressas 16 garotos das categorias de base para enfrentar o América-MG, em Belo Horizonte, evitando assim uma derrota por W.O. e punições ainda mais severas da CBF.
Além disso, a Ponte sofre com três punições de transfer ban ativas — duas na FIFA e uma na CNRD — por dívidas com ex-atletas. Impossibilitado de registrar novos jogadores, o clube viu 11 reforços que já haviam treinado no Majestoso irem embora sem sequer poder entrar em campo.
Do rebaixamento no Paulista à lanterna da Série B
O reflexo do desastre administrativo dentro das quatro linhas foi imediato e cruel. No início do ano, a Ponte Preta protagonizou a pior campanha de sua história no Campeonato Paulista, somando apenas um ponto e sendo rebaixada para a Série A2.
Na Série B do Campeonato Brasileiro, o desempenho é igualmente catastrófico. Afundada na lanterna isolada da competição, a Macaca atingiu um jejum recorde de 19 partidas sem vitória, igualando a pior marca histórica do torneio, que pertencia ao ABC desde 2015. Matematicamente, as chances de queda de volta para a Série C já beiram os 99%.
A instabilidade também derrubou a comissão técnica. O treinador Márcio Zanardi pediu demissão alegando total falta de condições de trabalho em meio à greve dos atletas. Para tentar uma sobrevida milagrosa, a diretoria recorreu a um velho conhecido: o veterano Gilson Kleina, que assumiu o comando técnico do clube pela sexta vez na carreira.
SAF é a única salvação ou o pivô de uma guerra política?
Para a atual gestão, a única saída para evitar a falência completa atende por três letras: SAF (Sociedade Anônima do Futebol). Existe na mesa uma proposta de investimento estruturada no valor de R$ 1,1 bilhão ao longo de dez anos, sendo R$ 300 milhões destinados exclusivamente a quitar as dívidas sufocantes da instituição.
No entanto, o remédio virou motivo de uma violenta guerra política interna. A oposição do clube alega falta de transparência nos termos do contrato e conseguiu travar na Justiça, por meio de liminares, as assembleias gerais de sócios que votariam o projeto.
O impasse político gerou protestos inflamados de torcedores nos arredores do Moisés Lucarelli. Enquanto o processo não avança na Justiça, os investidores retiveram o aporte financeiro que seria utilizado para colocar os salários em dia, criando um círculo vicioso que afunda a Ponte Preta um pouco mais a cada dia. O que era o ano da consolidação pós-título tornou-se uma luta dramática pela sobrevivência de um dos maiores patrimônios do futebol do interior do Brasil.

