Recopando 1938: estreia do Brasil vira batalha histórica contra a Polônia com show de Leônidas

Sob chuva intensa em Estrasburgo, Seleção Brasileira vence por 6 a 5 na prorrogação e protagoniza um dos jogos mais marcantes da história das Copas do Mundo

Foto: Acervo do Museu do Futebol

O Brasil venceu a Polônia por 6 a 5 na prorrogação, em duelo válido pelas oitavas de final disputado no domingo, 5 de junho, no Stade de la Meinau, em Estrasburgo, na França. A partida entrou para a história como a Batalha de Strasbourg. Com gols de Leônidas da Silva, Romeu Pellicciari e Perácio, a seleção brasileira avançou de fase em um dos jogos mais marcantes das Copas do Mundo.

Com o mesmo formato da Copa do Mundo de 1934, o torneio contou com uma fase classificatória envolvendo 36 países, quatro a mais que na edição anterior. As 16 seleções classificadas disputaram o mata-mata já a partir das oitavas de final.

Diante de 13.452 torcedores e sob forte chuva, o confronto ganhou contornos épicos. O escrete brasileiro apostou na ginga e na ofensividade, distanciando-se do estilo europeu e consolidando uma identidade própria sob o comando do técnico Ademar Pimenta.

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O placar foi aberto aos 19 minutos, quando Leônidas, o Diamante Negro, aproveitou o bom momento da equipe para marcar. A alegria brasileira, acompanhada tanto no estádio quanto pelas transmissões de rádio, durou pouco. Aos 24, Fryderyk Scherfke empatou em cobrança de pênalti.

Transmissão de Rádio durante a Copa de 1932. Foto: Agência Nacional / Arquivo Nacional

Não demorou muito para que o balde de água fria viesse para os torcedores brasileiros e Fryderyk Scherfke marcasse aos 24 minutos de pênalti, fazendo com que os fãs se perguntassem: Será que o filme de 1934 iria se repetir?

Para a felicidade e alívio de todos os brasileiros, os precursores de canário responderam rápido com Romeu Pellicciari dois minutos após o gol de Scherfke. Com o gol marcado, a torcida acendia mais uma vez a chama da esperança da classificação e seguia firme com aquele futebol vistoso que mais tarde nos acostumaria mal.

Alguns minutos depois, a Seleção Brasileira ainda viria a ampliar o marcador com Berjun Perácio aos 45 minutos e espantar cada vez mais aquele nó na garganta do torcedor desde a Copa de 1934, realizada na Itália.

Na etapa final, porém, o cenário mudou. Ernest Wilimowski marcou duas vezes, aos 54 e 60 minutos, empatando o jogo e instaurando o caos para os brasileiros. O Brasil voltou a ficar à frente aos 72, novamente com Perácio, mas Wilimowski apareceu outra vez antes do fim do tempo regulamentar para deixar tudo igual em 4 a 4 e levar a decisão à prorrogação.

Ernest Wilimowski (vestido de branco) finalizando a jogada pelo seu time Ruch, em 1937. Foto: Reprodução

Com a pressão crescente pelo desempate, o Brasil desperdiçava chances claras de gol e via a Polônia crescer ainda mais na partida e se aproximar aos poucos da virada. Quando o time chefiado por Ademar Pimenta colocou os nervos no lugar, Berjun Perácio encontrou a energia necessária aos 72 minutos para afastar qualquer maré de má sorte no ambiente.

Ernest Wilimowski antes do fim do tempo regulamentar chegou ao empate em 4 a 4 colocando a partida requintes e drama e crueldade para o torcedor que esperava o fim do jogo.

Logo no início do tempo extra, Leônidas voltou a brilhar. Artilheiro e principal nome da equipe, marcou mais um e ajudou a seleção a abrir vantagem. O Brasil ampliou para 6 a 4 e passou a administrar o resultado.

Já nos minutos finais, com os jogadores exaustos, Wilimowski marcou seu quarto gol na partida, aos 119 minutos, fechando o placar em 6 a 5. Até hoje, ele é o jogador que mais marcou gols contra o Brasil em uma única partida de Copa do Mundo.

Um fato, no entanto, só revelado pelo próprio Leônidas anos depois, poderia ter mudado o resultado da histórica partida e o destino do Brasil naquela Copa em que terminou em terceiro lugar. Em meio ao lamaçal, sua chuteira tinha soltado a sola e ele não tinha outro par. Enquanto os membros da delegação tentavam a todo custo conseguir outra com o seu número, pois ele calçava apenas 36, continuou em campo só de meias. Devido à chuvarada, o juiz não percebeu.

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Então, após o rebote de uma falta na barreira, emendou de primeira e marcou descalço, como nos tempos de pelada, um dos gols da vitória da seleção. Fato esse que foi totalmente inusitado numa Copa do Mundo.