São Paulo perde o Choque-Rei e transforma duelo com Boca em divisor de águas da temporada

Estratégia de Dorival priorizou a Sul-Americana, mas eliminação na terça-feira (15) pode ampliar a pressão sobre clube e treinador

Foto: Rubens Chiri / São Paulo

O São Paulo entrou em campo neste sábado (12) contra o Palmeiras, pela 27ª rodada do Brasileirão, já sabendo que o clássico é o jogo de menor importância dessa semana. Escalado por Dorival Júnior com uma formação recheada de reservas, o Tricolor foi derrotado por 2 a 0 no Nubank Parque, na capital paulistana, e ainda viu a partida ficar mais difícil com a expulsão do zagueiro Osório, aos 38 minutos do primeiro tempo, após falta dura em Piquerez.

Com um a menos em campo por praticamente todo o segundo tempo, a equipe paulista pouco pôde reagir e assistiu ao Palmeiras administrar a vantagem sem grandes sustos.

A leitura tática do clássico

Não é exagero dizer que o São Paulo entrou em campo já com a cabeça na Argentina, ou melhor, na revanche contra o Boca Juniors. Dorival poupou boa parte do time que vinha de duas vitórias seguidas no Brasileirão, priorizando a recuperação física e a preservação de peças-chave para a decisão da Sul-Americana. O problema é que o “plano B” não resistiu ao trâmite natural de um clássico, a pressão do Palmeiras, intensidade acima da média e, por fim, a expulsão que transformou a partida em administração de prejuízo.

Do ponto de vista esportivo, a derrota tem baixo custo direto na tabela, o São Paulo segue na décima posição, sem brigar diretamente pelo título nem correndo risco imediato de rebaixamento. O custo real é psicológico e simbólico: perder um Choque-Rei, ainda que “sacrificado”, nunca é facil para a torcida, especialmente num ano marcado por instabilidade interna, incluindo relatos recentes de atrasos salariais no clube.

Poupar para continuar na Sul-Americana

A decisão de Dorival Júnior de “entregar” o clássico é compreensível sob a lógica fria do calendário: o São Paulo vem de uma derrota por 1 a 0 para o Boca Juniors na Bombonera, na ida das quartas de final da Sul-Americana, e precisa vencer por dois gols de diferença na terça-feira (15), no Morumbis, para avançar às semifinais no tempo normal, uma vitória simples por um gol leva a decisão aos pênaltis. Nesse contexto, arriscar lesões ou desgaste físico de titulares num clássico que não decide nada imediato pareceu que para a comissão técnica, melhor do que correr o risco de perder titulares.

O problema desse tipo de aposta é só da certo se o resultado principal que é a classificação sobre o Boca acontecer. Se o São Paulo for eliminado da Sul-Americana depois de ter abertamente sacrificado o clássico, a crítica será dupla: perdeu o Choque-Rei e ainda saiu da competição continental, ficando sem a “recompensa” que justificaria o sacrifício. É uma estratégia de alto risco justamente porque transfere toda a pressão para os 90 minutos de terça-feira. Não há margem para erro, e qualquer tropeço vai reacender, com força redobrada, o discurso de crise em torno do técnico e da diretoria.

As vitórias recentes: mudança de rota ou apenas alívio de curto prazo?

Antes do clássico, o São Paulo havia rompido um jejum de dez jogos sem vencer, emendando duas vitórias seguidas no Brasileirão e recuperando parte do poder ofensivo que faltava ao time ao longo do ano. É uma melhora real, mas que precisa ser vista com cautela: duas vitórias, por si só, não corrigem os problemas estruturais que se acumularam na temporada, como a dependência de poucos jogadores em condição de jogo, as oscilações defensivas e o pano de fundo extracampo, que segue pesando sobre o ambiente do clube.

O que essas vitórias parecem ter mudado, de fato, é o clima: interromperam a sensação de deterioração constante e devolveram um mínimo de confiança ao elenco antes do confronto mais importante do semestre. É diferente de dizer que mudaram o São Paulo enquanto time. A crise segue no clube, ela apenas perdeu, momentaneamente, o componente de “resultados em campo”. Se o time cair diante do Boca, dificilmente as duas vitórias no Brasileirão servirão de amortecedor para a repercussão negativa.

O duelo decisivo contra o Boca Juniors

A missão na terça-feira é clara e exigente: vencer por dois gols de diferença ou mais para se classificar na base do tempo normal, ou triunfar por um gol para levar a vaga aos pênaltis. Pela frente, um Boca Juniors invicto havia dez jogos, sólido mentalmente e que já eliminou o Deportivo Recoleta com facilidade nesta edição da Sul-Americana.

O Morumbis deve ser decisivo como fator de pressão e apoio, mas o São Paulo terá de resolver em campo o que a estratégia de poupança tentou administrar fora dele: chegar fisicamente inteiro, mentalmente equilibrado e ofensivamente afiado o suficiente para reverter um placar desfavorável contra um adversário que dificilmente vai recuar. Depois de “sacrificar” o clássico contra o Palmeiras, não há mais espaço para duvidas, só resta ao Tricolor confirmar, dentro de campo, que a aposta valeu a pena.