Desabafo de Bia Haddad volta a acender um alerta no mundo do esporte

Brasileira caiu na primeira rodada de Wimbledon e abriu debates sobre saúde mental no tênis

Foto: Divulgação/Felipe Figueiredo

Na última terça-feira (30), após cair na primeira rodada de Wimbledon diante de Maria Timofeeva, em dois sets diretos, Bia Haddad Maia fez um desabafo doloroso que ecoou mais do que os números frios da derrota. A tenista número 1 do Brasil deu voz à solidão do circuito e ao peso invisível da raquete, mostrando que sua pior adversária é a sua mente.

A temporada de 2026 carimbou a pior sequência de sua carreira, acumulando 18 derrotas e apenas três vitórias, indo de top 10 para quase fora do grupo de 150 melhores do mundo drasticamente. O capítulo mais recente da sua crise no circuito foi escrito na Quadra 11 de Wimbledon. Bia foi derrotada na estreia pela russa Timofeeva, que representa o Uzbequistão, com as parciais de 6-3 e 6-2.

O jogo foi tomado por momentos difíceis para o lado de Bia Haddad, que cometeu 28 erros não-forçados e converteu apenas cinco winners, cedendo a pressão da agressividade imprimida pela russa. Seu maior desafio foi manter a efetividade no serviço, o que acarretou em três duplas faltas, seis break points e cinco quebras ao longo dos dois sets.

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Durante a transmissão, foi possível ouvir uma autocobrança da brasileira, que chegou a sugerir abandonar o esporte ao dizer “Por favor, vai para a sua casa e para de jogar essa p… desse esporte”.

Aos 30 anos, Haddad Maia é a atual número 134 do mundo, mas chegou a ser a 10° melhor do ranking em 2023. Na WTA, ela ganhou 483 partidas, perdendo somente 288.

Em entrevista pós jogo concedida à ESPN, a declaração da atleta humanizou o placar, alertando os perigos de se reduzir um esportista a uma fase da carreira. De início, Bia relatou que tem melhorado nos treinos e se adaptando ao momento de transição, já que trocou de treinador há três meses.

“Estou há meses numa sequência de muitas derrotas. Até quando eu faço coisas boas, a sensação não é legal. Você sai da quadra com uma sensação ruim. Estou melhorando nos treinos, ontem mesmo joguei um bom set com a Paolini, por exemplo. Também estou em momento de transição, há três meses com um treinador novo”.

O tênis é um esporte isolado, onde cada erro tem um peso maior. Não há substituições, não há companheiro de equipe para te salvar em um dia ruim. O atleta precisa resolver o jogo sozinho, com a sua própria mente.

Além disso, Bia é a principal referência feminina do Brasil no esporte, carregando consigo toda a expectativa da nação. O público muitas vezes esquece o seu histórico assim que os resultados oscilam, atacando-a sem precedentes.

“Sobre essas pessoas que comentam querendo te colocar para baixo, eu tenho uma pena, na verdade. Porque elas não têm ambição e não têm sonhos. A frustração delas está na gente. Elas querem se sentir bem quando a gente perde. Eu não entendo a cabeça dessas pessoas. Não estou usando celular ou redes sociais, mas tenho muita consciência de tudo que eu percorri. Quando a gente critica, tem que pensar que tem muitos atletas que batalham muito para estar aqui e não conseguem. A gente tem que respeitar o caminho de cada um. Cada vez mais vejo jogadoras de 37, ou 38 anos…Em algum momento essa maré vai virar. Seja agora, no final ou no ano que vem”, concluiu Bia.

Anteriormente, ela já havia acendido alertas parecidos. Em torneios anteriores, chegou a relatar dificuldades para respirar e tremores em quadra devido à exaustão mental. Para quem a enfrenta, isso ajuda a mapear os comportamentos psicológicos para as partidas.

O caso acende a discussão necessária sobre saúde mental no esporte. Os relatos da paulista mostram que quando a mente satura, o preço é cobrado no placar, enfatizando que a ansiedade e a quebra de confiança podem se materializar em números.

Agora, o foco fica para os próximos passos na temporada de quadra dura, que começa na América do Norte, visando a preparação para o US Open, onde historicamente ela costuma reencontrar seu melhor ritmo físico e mental.

“Ninguém pode aposentar ninguém”: a defesa de quem entende

Na transmissão da ESPN, Andreia “Dadá” Vieira e Bruno Soares, ex-tenistas e atuais comentaristas do canal, discutiram sobre a fase que Bia tem enfrentado, saindo em defesa da atleta.

“A frustração da Bia é porque ela não consegue fazer o que sabe que é capaz. É muito mais o lado emocional, está errando muito e não está conseguindo sacar bem. A Bia está jogando muito mais contra ela mesmo do que contra a adversária. Agora ela vai precisar organizar o calendário e tentar voltar a vencer jogos, ela não se esqueceu como se joga. Ela está passando por uma fase difícil, há bastante tempo, e o emocional está afetando ela. Nós recebemos muitas mensagens, falando muitas coisas da Bia, e eu gostaria de falar, com o meu lado mais atleta, que a primeira coisa que a gente precisa é ter mais respeito pela atleta. Ninguém pode aposentar ninguém, o atleta tem que saber o momento de parar e isso precisa ser respeitado por todos”, comentou Dadá.

Bruno completou dizendo que “o jogo da Bia é contra ela mesma” e a incentivando a se manter positiva, continuar acreditando, e aceitar que nem sempre as coisas vão dar certo.

A epidemia silenciosa no esporte

Bia Haddad não é a única no esporte a sofrer com a pressão, as críticas sem controle e os problemas de saúde mental. Nomes como Naomi Osaka, Simone Biles e Serena Williams integram a extensa lista de atletas que decidiram romper o silêncio sobre o esgotamento psicológico.

Na temporada passada, Elina Svitolina encerrou o ano mais cedo, admitindo que psicologicamente não tinha forças para competir e que o tênis “não é sobre dinheiro ou ranking, é sobre estar pronto para lutar”. Para completar, a ucraniana reconheceu que isso não a faz fraca, mas mostra que é humana

Em maio de 2026, a ex-número 2 do mundo, Paula Badosa, chegou a cogitar uma pausa por tempo indeterminado após cair precocemente no WTA de Madrid. Sofrendo com uma série de lesões, ela desabafou:

“No terceiro set meu cérebro simplesmente desligou. Eu estava totalmente vazia. Passei os últimos meses gastando tanta energia batalhando contra a minha própria mente que cheguei à exaustão. Preciso parar, respirar e ver o que está acontecendo aqui dentro”.

Isso não se reduz aos esportes femininos, o finlandês Emil Ruusuvuori abriu o jogo sobre o seu afastamento das quadras, revelando que lidou com crises de pânico severas durantes os jogos e que seu sonho “parecia um inferno”. O burnout fez com que ele precisasse parar para “reaprender quem ele era sem uma raquete na mão”.

A perda de identidade fora de quadra já foi abordada também por Madison Keys e Amanda Anisimova, que explicaram que o tenista profissional é moldado desde a infância para depositar todo o seu valor como pessoa no ranking.

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“Chegou a um ponto em que eu não suportava ver uma raquete. Eu estava mentalmente quebrada. O tênis consumiu toda a minha identidade como pessoa. Eu precisei parar para entender que o meu valor no mundo não depende de um placar ou de um ranking”, concluiu Anisimova.

No topo do mundo, Iga Swiatek foi uma das vozes mais ativas sobre o assunto, chegando a criticar o excesso de torneios obrigatórios na temporada, que fazem com que os atletas passem mais de 35 semanas do ano viajando e encarando a solidão dos hotéis e as trocas de fuso horário.

Além disso, ser um dos esportes que mais sofre com o assédio de máfias de apostas fez com que a WTA precisasse fechar parcerias com empresas de segurança digital para monitorar e filtrar as contas das atletas na tentativa de conter as ameaças de morte e ódio que elas recebem quando perdem um jogo.